AFP PHOTO / SAUL LOEB
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Democracia ameaçada

Para se defender, governo dos Estados Unidos tenta desmoralizar órgão de investigação subordinado a Washington

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2018 | 05h00

Como um governo deve se comportar, quando o presidente e alguns de seus auxiliares mais diretos estão sob investigação da Polícia Federal e do Ministério Público? É uma pergunta familiar para os brasileiros. Os três últimos presidentes e seus governos, incluindo o atual, têm sido investigados. 

Certamente houve tensões por aqui. Mas nada comparável à guerra desencadeada com a divulgação, na sexta-feira, do dossiê do Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados sobre a atuação do FBI na investigação das relações entre assessores de Donald Trump e autoridades e empresários russos. 

Está em cartaz o filme The Post, a Guerra Secreta, que mostra a batalha judicial do New York Times e do Washington Post pelo direito de publicar estudos encomendados pelo Departamento de Defesa dos EUA que indicavam que o Pentágono sabia que não tinha condições de vencer a Guerra do Vietnã e, mesmo assim, seguiu mandando milhares de jovens para uma morte sem sentido.

O dossiê do FBI equivale aos Papéis do Pentágono com o sinal trocado. Nesse caso, foram a oposição democrata e o próprio FBI que resistiram a sua publicação, argumentando que se trata de uma visão deturpada, que omite fatos importantes acerca da forma como o FBI obteve do Tribunal de Vigilância da Inteligência Externa autorização para espionar assessores de Trump que fizeram contatos com autoridades e empresários russos durante a campanha de 2016.

O dossiê chegou a ser aprovado pelos dois partidos no comitê. Mas depois os democratas afirmaram que seu texto havia sido alterado pelos republicanos. O relatório acusa os agentes federais de omitir do tribunal informações importantes sobre as fontes das denúncias, como por exemplo que uma delas, o ex-agente secreto britânico Christopher Steele, fora contratado pela campanha da democrata Hillary Clinton. 

Mas o próprio dossiê incorre nos erros que acusa o FBI de ter cometido, ao omitir que a investigação de Carter Page, então assessor da campanha de Trump, na verdade foi patrocinada pelo bilionário Paul Singer, um doador e ativista conservador, contrário à candidatura do hoje presidente. Page agora colabora com a Justiça.

O imbróglio opõe Trump a seu secretário de Justiça, Jeff Sessions, que acumula as funções equivalentes às de procurador-geral da República e de advogado-geral da União. Os alvos de Trump são Robert Mueller, chefe da comissão especial de investigação sobre a interferência russa nas eleições de 2016 e as relações dos assessores de Trump com os russos, e o vice-procurador-geral, Rod Rosenstein, que o nomeou.

O caso tem muitos outros detalhes, incluindo mensagens de texto hostis a Trump enviadas pelo agente do FBI que abriu as investigações, Peter Strzok. E doações democratas à campanha ao Senado da Virgínia da mulher do vice-diretor do FBI, Andrew McCabe, Jill, em 2015. McCabe reagiu solicitando sua aposentadoria.

Trump já demitiu o diretor anterior do FBI, James Comey, que se recusou a jurar lealdade a ele. O atual diretor, Christopher Wray, pode ter o mesmo destino.

Auxiliares muito próximos do então candidato e depois presidente eleito, incluindo seu filho, Donald Trump Jr., e seu genro, Jared Kushner, reuniram-se com representantes russos, numa violação da lei, que impede esses contatos, sem autorização do Departamento de Estado. 

Num contexto em que a eleição de Trump foi beneficiada pela guerra psicológica russa nas redes sociais contra sua adversária, Hillary Clinton, auxiliares dele conversaram com os russos, por exemplo, sobre retirar as sanções americanas contra a Rússia. 

Ao se defender, o governo procura desmoralizar o órgão de investigação a ele subordinado. Uma bola de neve está se formando, e ela arrasta consigo a confiança na democracia americana.

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