Miraflores Palace/REUTERS
Miraflores Palace/REUTERS

Denunciada por crimes contra humanidade, Venezuela usa aliados para barrar medidas na ONU

Alto comissário das Nações Unidas pediu que uma comissão internacional de inquérito fosse criada; para isso, uma resolução teria de ser apresentada por algum governo no Conselho de Direitos Humanos, o que não aconteceu

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2017 | 15h31

GENEBRA - Denunciado por crimes contra a humanidade, o governo de Nicolás Maduro consegue apoio suficiente de aliados para evitar que a ONU adote, por enquanto, qualquer tipo de medida contra Caracas. Nesta terça-feira, 12, o Conselho de Direitos Humanos ouviu a intervenção de diversos países, depois que o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Al Hussein, apontou que as violações cometidas pelo regime chavista poderiam ser consideradas crimes contra a humanidade. Ele pediu ainda que uma comissão internacional de inquérito fosse criada.

Para isso, uma resolução teria de ser apresentada por algum governo no Conselho, o que não aconteceu. O Estado apurou que governos latino-americanos consideram a possibilidade de fazer a proposta. Mas, por enquanto, não teriam votos suficientes para fazer frente ao bloco de apoio de Maduro. Por isso, estão evitando fazer um anúncio.

Ao tomar a palavra, os países se dividiram entre aqueles que apoiavam medidas contra a Venezuela e os que saíram ao socorro do regime. O embaixador venezuelano, Jorge Valero, acusou o representante da ONU de "ingerência em assuntos internos" e foi apoiado por governos como o do Equador e do Egito, além do tradicional apoio de Cuba. “A crise deve ser resolvida sem interferências externas”, disse um representante de Quito.

Ao apoio da Venezuela se somaram ainda dezenas de países do Movimento Não-Alinhado, formado por governos de diferentes regiões em desenvolvimento. O Estado apurou que a China também trabalhou nos bastidores nos últimos dias para evitar que uma proposta concreta sobre Caracas ganhasse força. Ao discursar nesta terça-feira, Pequim alertou que Hussein precisa “respeitar a soberania” dos Estados. O governo russo também criticou o representante da ONU, alertando que ele “abandonou sua neutralidade”.

De outro lado, porém, estavam os países que usaram a reunião para atacar Maduro. Falando em nome de 12 países, entre eles o Brasil, o governo do Peru pediu a saída da Venezuela do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Para o Grupo de Lima, como é conhecido, a Venezuela “não cumpre os requisitos e obrigações” para fazer parte do órgão. México, Canadá e Chile estavam entre os países que assinaram a declaração.

O grupo qualificou o governo de Caracas como “ditadura” e denunciou as violações aos direitos humanos.  Mas o Grupo de Lima não anunciou a apresentação de uma resolução contra a Venezuela. 

A Casa Branca deixou claro que apoiava a intervenção do Grupo de Lima. Mas, sabendo que não tinha votos suficientes ao seu lado, evitou apresentar uma resolução sugerindo medidas ou a criação de uma comissão de inquérito.

O governo americano pediu o “fim da escala de violações de direitos humanos”. “Fazemos um apelo para que Maduro restabeleça a democracia e libere todos os presos políticos”, disse.

Falando em nome da União Europeia, o governo da Estônia alertou que a crise na Venezuela está se aprofundando e exigiu a liberação de presos políticos. Para o governo da Espanha, uma solução para a crise precisa passar pelo “fim da violência e o respeito aos manifestantes pacíficos”. Alemanha e Suíça também criticaram o regime em Caracas.

De acordo com fontes diplomáticas, haverá um novo esforço para reunir apoio até o fim do mês para apresentar uma resolução. Mas os governos do Grupo de Lima apontam que apenas vão se lançar nessa direção se sentirem que existe possibilidade de aprovação.

O temor, segundo negociadores, é de que uma vitória de Maduro acabe lhe dando respaldo interno. Presentes à reunião, ONGs e parentes de vítimas acusaram o órgão de estar “blindando” o regime venezuelano.

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