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Depois das mortes, o medo

Apesar das declarações de força e resistência comuns aos líderes, continente está assustado e se vê diante de uma ameaça permanente

GILLES LAPOUGE

- Atualizado:24 Março 2016 | 20h 28

Desde terça-feira, os líderes europeus desandaram a falar. Dizem todos a mesma coisa: que estão tristes e furiosos, que os massacres cometidos em Paris pelo Estado Islâmico em novembro e terça em Bruxelas não os apavoram. Que não cederão.

E têm razão. Mas também é claro que não diriam que, para eles, as chacinas são meio rotineiras ou que vão se curvar aos jihadistas.

Uma vez ditas as platitudes, seria saudável ouvir um pouco de verdade: a Europa, se não se considera vencida, está com medo. E por quê? Porque foi desafiada por uma força maléfica, evasiva, mutante, múltipla, sem rosto, flexível e dotada de três armas terríveis.

A primeira delas é a sombra. Esses assassinos são invisíveis. Ocultos em suas cavernas, podem rapidamente agir e voltar aos subterrâneos ou refugiar-se na morte.

A segunda arma é a ubiquidade. Eles conseguem estar aqui e lá ao mesmo tempo, estar nos corações e nas bombas, em Paris, Bruxelas e no Sinai. Nos porões sórdidos e nos sótãos deteriorados, nos palácios e monumentos.

A terceira arma é o arsenal. O EI dispõe de uma arma pior que o Kalashnikov: a aceitação da morte por seus soldados. Nunca na história essa arma foi tão maciçamente utilizada – nem mesmo pelo Japão de Pearl Harbour. O homem equipado com a própria morte tem em mãos a arma absoluta. Um grito abominável dado em 1937 por um dos discípulos de Franco, José Millán-Astray y Terreros, diante do nobre filósofo Miguel de Unamuno: “Viva la muerte”. Esse é o brado de convocação de todos os assassinos da jihad.

Dá para explicar a escolha de Bruxelas para o último massacre do EI? A verdadeira razão é ser Bruxelas uma grande cidade, como são as já ensanguentadas Londres, Madri e Paris. Bruxelas tem outras características: é uma das capitais dessa Europa que os jihadistas detestam e querem esquartejar. E ocupa um ponto geográfico nevrálgico.

Bruxelas é a capital da União Europeia e, por sua localização, base ideal para os comandos assassinos. É aberta a todos os ventos, entra-se nela “como em um moinho”. Por esse motivo serviu de ponto de partida para os atentados em Paris: os matadores, vindos de toda parte, reuniram-se ali e chegaram à capital francesa num piscar de olhos.

Mas a Bélgica proporciona outras vantagens para o extremismo. Há 70 anos – e com a construção em 1950 da Grande Mesquita de Bruxelas, regiamente financiada pela Arábia Saudita –, a cidade ferve de imãs exaltados.

Paralelamente, nos anos 1960, a Bélgica acolheu centenas de milhares de marroquinos do Rif – as montanhas selvagens de Marrocos –, que encontraram trabalho nas minas de carvão belgas. Alguns anos mais tarde, com as minas fechadas pela crise, esses trabalhadores, aturdidos, estupefatos, se viram jogados nas cidades belgas e condenados à miséria total.

Criaram-se assim enclaves com forte densidade marroquina. Neles, cresceram os filhos e netos dos emigrados dos anos 1950. Um exemplo é o bairro de Molenbeek, domínio marroquino com 100 mil habitantes, celeiro de jihadistas onde foram planejados os atentados de 13 de novembro em Paris e os de agora em Bruxelas.

Nesses enclaves fermentou um caldo de cultura muito parecido com aquele das grandes periferias parisienses – como Seine Saint-Dennis.

Essa massa de jovens que com frequência abandonam a escola, errantes, sem cultura, sem alegria, sem esperança, vivendo de bicos, rejeitados por quase todos, entra no circuito infernal dos pequenos furtos, das gangues, da droga, cheios de frustração e cólera.

Junte-se a esse desastre a pregação messiânica dos imãs radicais. Por ela os jovens são convencidos de que, contrariando sua experiência, têm um futuro. Um futuro magnífico. É como se, ao passar por uma porta, deixassem para trás a tristeza para entrar nos domínios da força, do dever e do heroísmo.

Ocorre, então, uma mudança de destino. Num instante, eles passam da condição de zeros à de heróis. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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