AFP PHOTO / joel SAGET
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Derrota expõe fissuras na extrema direita

Grupo mais moderado disputa poder com radicais da Frente Nacional, partido de Marine Le Pen

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2017 | 05h00

O péssimo debate às vésperas do segundo turno, as mudanças estruturais de programa de governo de última hora e a ampla derrota frente a Emmanuel Macron – 66,1% contra 33,9% – levantaram dúvidas na Frente Nacional sobre a capacidade de Marine Le Pen de levar o partido à vitória eleitoral. Mesmo com um recorde histórico de votos, mais de 10 milhões, a legenda de extrema direita entrou em crise e demonstrou suas fissuras internas horas após o resultado da corrida ao Palácio do Eliseu.

Embalada pelas pesquisas de opinião, que até novembro apontavam Marine Le Pen como favorita absoluta da eleição presidencial, a Frente Nacional projetava fazer entre 27% e até 30% dos votos no primeiro turno. O resultado foi 21% e uma passagem apertada ao segundo turno. Na disputa com Macron, a nacionalista foi esmagada no debate realizado na última quarta-feira, mostrando a fragilidade de seu programa de governo e ressaltando a violência dos ataques do partido de extrema direita que tentava havia quatro anos mudar a imagem de radicalismo. 

O programa de governo, centrado na ruptura entre a França e a União Europeia (Frexit) e no fim do euro e a retomada do franco, a extinta moeda nacional, foi outro problema da campanha. Mais de 70% dos franceses recusam o rompimento.

Os erros da campanha reativaram a disputa interna do partido entre a linha estabelecida pelo vice-presidente, Florian Philippot, que definiu a coerência da campanha de Marine Le Pen, e a sobrinha da candidata, a deputada Marion Marechal Le Pen, reputada como linha dura dentro do partido.

As críticas da sobrinha afloraram ainda na noite de domingo, quando Marion criticou Marine de forma velada. "Haverá lições a tirar, lições positivas graças aos 10 milhões de votos, e lições negativas porque nós não conseguimos impor a visão de que essa eleição seria um referendo a favor ou contra a França, a favor ou contra a União Europeia", reclamou Marion Marechal Le Pen.

Nesta segunda-feira, Philippot reconheceu que as mudanças anunciadas no domingo por Marine Le Pen, que incluem a mudança de nome – provavelmente "Patriotas" – e a criação de uma política de alianças, terão de ser implementadas. "Muitos pedem uma estrutura ainda mais consensual e mais arrojada para poder chegar ao poder", afirmou.

Na luta entre as linhas Philippot, apoiada por Marine, e Marion, apoiada pela base militante de extrema direita e por seu avô, o fundador do clã, Jean-Marie Le Pen, estão duas visões opostas do partido. A primeira aposta no discurso do "nem direita, nem esquerda", um partido nacionalista e assistencialista focado nas classes populares. A segunda aposta em um partido de direita dura e ultraliberal do ponto de vista econômico. 

À rede France Télévisions, a eurodeputada de extrema direita Sophie Montel defendeu que a linha de Marine Le Pen seja seguida estritamente. Outro líder de extrema direita, o prefeito de Béziers, Robert Ménard, pediu uma atualização sobre o programa do partido a respeito do euro e mais alianças. "É preciso criar um grande movimento patriota aberto aos eleitores da Frente Nacional e republicanos responsáveis", afirmou ainda, via Twitter. "Será o custo da vitória." 

Mas essas questões internas não serão resolvidas até 11 e 18 de junho, datas das eleições legislativas. Segundo pesquisa do instituto Kantar-Sofres, a Frente Nacional aparece em terceiro lugar nas intenções de voto, com 21%, atrás de En Marche! (rebatizado ontem Républicains en Marche, ou Republicanos em Movimento, REM), com 24%, e do partido conservador Republicanos, com 22%. Esse resultado permitiria a Marine Le Pen chegar ao segundo turno das eleições parlamentares, mas contar com uma bancada não maior do que entre 15 e 25 deputados – a maior da história, mas muito longe da maioria, de 286 deputados.

Ainda assim, analistas políticos como Rolland Cayrol, diretor de pesquisas do Centro de Pesquisas Políticas da Sciences Po, advertem que a vitória de Macron, caso não resulte em um bom governo, pode servir de trampolim à uma vitória de Le Pen em 2022, quando das próximas eleições presidenciais. Isso aconteceria porque o FN pode vir a se posicionar como real força de oposição ao presidente eleito.

Antes disso, porém, o partido passará por seu processo de mutação. As disputas internas devem aflorar com força no terceiro trimestre, quando será realizada o congresso do partido.

 

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