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Entrevista. Santiago Irazabal Mourão, embaixador do Brasil em Teerã

Para resistir às restrições, economia iraniana foi diversificada; para embaixador, momento é bom para Brasil investir

Desafio do Irã após fim das sanções é derrotar recessão

- Atualizado:30 Janeiro 2016 | 16h 16

Depois de fazer visitas histórica à Itália e à França, o presidente do Irã, Hassan Rohani, voltou para casa levando na bagagem acordos bilionários. Na primeira parada, Itália, os detalhes não foram divulgados, mas algumas estimativas apontaram que os contratos alcançados chegaram a cerca de € 17 bilhões. 

Após ser recebido pelo papa Francisco no Vaticano, Rohani e sua comitiva de 120 empresários e ministros seguiram para a França. Em Paris, mais de 30 acordos foram assinados e o potencial de negócios que se abriu foi de € 15 bilhões. 

Ele colhia, assim, mais frutos da retirada progressiva das sanções multilaterais que por anos castigaram a economia iraniana. Antes mesmo de deixar Teerã, recebeu a visita do presidente da China, Xi Jinping, seu maior parceiro comercial, com promessas de fazer esse intercâmbio crescer ainda mais. 

Com símbolos nacionalistas, como a bandeira do país, iranianos comemoram nas ruas da capital o acordo nuclear assinado pelo país

Com símbolos nacionalistas, como a bandeira do país, iranianos comemoram nas ruas da capital o acordo nuclear assinado pelo país

O Brasil também quer estar nesse contexto. Segundo o embaixador brasileiro em Teerã, Santiago Irazabal Mourão, o comércio entre os países nunca foi interrompido e as sanções não prejudicaram as exportações brasileiras – concentradas em alimentos – para o Irã. Mas as transações financeiras ficaram mais difíceis, em razão do temor de fazer operações com bancos alvos das sanções. Agora, afirmou o diplomata em entrevista ao Estado, a perspectiva é de quase triplicar nos próximos cincos anos. A seguir, a entrevista. 

Como é, hoje, a relação do Brasil com o Irã? 

Primeiro, estamos comemorando 113 anos de relação com o Irã. Ela foi mais visível no período do presidente Lula, mas continuou intensa e se traduziu por um comércio que no seu pico chegou a US$ 2,3 bilhões, em 2011. A partir de 2010, nosso comércio ultrapassou a cifra dos US$ 2 bilhões. Hoje, está em US$ 1,6 bilhão. Caiu, mas não é um número desprezível. É quase 10% do superávit global do Brasil. Importamos muito e nossas exportações para o Irã são basicamente de alimentos: soja, carne vermelha, açúcar e milho. Esses quatro produtos compõem quase 95% da nossa pauta de exportação para o Irã. 

As sanções impactaram essas relações comerciais? 

Sim. Talvez não tanto quanto outros países porque exportávamos alimentos, que estavam fora das sanções. Mas afetou porque os nossos exportadores tiveram dificuldade de comercializar com o Irã. A transferência de dinheiro era muito difícil. Esperamos que (as dificuldades com) essas transferências possam ser superadas rapidamente com o fim das sanções e a reincorporação dos bancos iranianos ao sistema internacional. 

Qual será o efeito?

Esperamos que quando o Irã se incorpore plenamente ao sistema financeiro internacional, o comércio com o Brasil seja muito mais fluido e evidentemente o Brasil poderá diversificar a sua pauta de exportação incluindo, por exemplo, equipamento médico hospitalar, maquinário agrícola, bens de capital, peças para automóveis, que são áreas que evidentemente estão crescendo. 

E a área de energia? 

Óleo e gás, sem dúvida nenhuma, é uma área de grande interesse e o Irã precisará de grandes investimentos. Pensa-se que o Irã poderá consumir nos próximos dez anos talvez mais do que US$ 500 bilhões em investimentos nesse setor. O Irã é a terceira maior reserva de petróleo do mundo e a segunda maior de gás. Essa produção foi muito afetada pelas sanções, proibiram a exportação e houve uma redução muito grande dos investimentos nesse setor, que precisará de um grande investimento agora. O Brasil tem aí uma expertise muito grande e certamente terá uma cooperação, seja de investimento ou na área de prospecção de águas profundas, principalmente no Cáspio. 

Qual é a perspectiva de crescimento do intercâmbio comercial para os próximos anos? 

Estamos trabalhando e o ministro de Indústria e Comércio (Armando Monteiro) tem falado em duplicar ou um pouco mais. Hoje, nosso comércio está em um US$ 1,5 bilhão. Podemos ir para algo como US$ 4 bilhões no horizonte de três, quatro ou cinco anos. O Irã é um país muito rico, apesar das sanções, com uma população de alto nível de educação. Há espaço para crescer não somente no que se refere às exportações, mas às compras brasileiras. 

O que o Brasil compra do Irã? 

Compramos hoje do Irã produtos como pistache, tapete, frutas secas. Há um grande mercado e o Irã é um grande produtor de produtos petroquímicos, polietileno, betume para as estradas e também de ureia, que o Brasil consome em grande quantidade. 

Com o Irã colocando mais barris de petróleo no mercado, o preço não cairá ainda mais? 

O Irã exportava antes das sanções em torno de 1,2 milhão de barris por dia, o que equivale à sua cota na Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Hoje, a produção do Irã está na casa dos 600 a 700 mil barris por dia. O que o governo iraniano prevê é que ao completar seis meses do fim dos sanções, o Irã poderia estar no mercado com alguma coisa em torno de 1 milhão de barris por dia. Mas precisará de pesados investimentos.

Qual será o impacto para a economia iraniana?

O país tem feito um esforço enorme e as sanções de alguma forma contribuíram para isso, já que elas praticamente cortaram pela metade as exportações de petróleo, para conseguir reduzir a participação dessa commodity no seu orçamento. Hoje, os dados oficiais indicam que a dependência do petróleo está em torno de 25%, talvez 30% do orçamento. Há um otimismo natural, mas o Irã está em processo muito intenso de reduzir a participação do petróleo no orçamento. 

Como a economia foi diversificada? 

Quando falamos dos vários setores e participação na economia, temos de pensar que o setor industrial está operante, porém, deprimido, porque faltaram às empresas condições de comprar equipamentos, reformular, modernizar, mas elas estão caminhando. O setor agrícola cresce consideravelmente e se tornou um pouco mais eficiente, se abrindo a mercados novos, como a Rússia e outros, e o setor de serviços se desenvolve rapidamente, sem falar na boa formação de engenheiros. 

Qual é o clima no país? 

O momento que se abre é muito importante, é histórico. Temos essa percepção, caminhando na rua, conversando com as pessoas, de enorme esperança. Estão aguardando que as soluções da área econômica se transformem em aumento de emprego e crescimento. Espera-se que nos próximos dois anos o Irã cresça um pouco acima da média dos países da região, mas o país vem de dois ou três anos de recessão. 

O sr. chegou em 2013. Quais são as diferenças desde então? 

Cheguei um mês antes das eleições de Rohani. Peguei o fim do (Mahmoud) Ahmadinejad. Fui o último embaixador a apresentar as cartas credenciais ao ex-presidente. Ele queria muito receber o embaixador do Brasil e fez esse gesto. O Rohani já era presidente eleito. O último período de Ahmadinejad foi de depressão econômica intensa. E Rohani, nos seus dois primeiros anos, fez um esforço muito grande de reestruturação macroeconômica no país. Combateu a inflação, que caiu significativamente, tomou uma série de medidas de reforma econômica e o país voltou a crescer lentamente. Ele tem o voto de confiança da população, que continua entusiasmada e agora esperando que todas essas promessas da comunidade internacional comecem a se tornar realidade. Espero que nós no Brasil possamos estar nesse trem também. Possamos estar aqui presente econômica e comercialmente de forma mais significativa. Os iranianos gostam muito do Brasil. Acho que há um espaço grande para os empresários brasileiros participarem e fazerem negócios aqui. 

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