Desafios dos EUA

 O contraste de estratégias não poderia ser maior. Os Estados Unidos trabalham para montar uma coalizão duradoura com a finalidade de humilhar e finalmente destruir o potencial do Estado Islâmico. Enquanto isso, o grupo terrorista aproveita todas as oportunidades para se fortalecer, divulgando uma série cada vez maior de atrocidades com o fim de deixar uma marca indelével em todo o Oriente Médio. 

Ian Bremmer, O Estado de S. Paulo

01 Março 2015 | 07h23

O EI precisa explorar imediatamente a sua visibilidade e seus recursos, enquanto estes estão disponíveis. Os EUA e seus aliados precisam conter o EI e distraí-lo militarmente até que deixe de ser uma ameaça. Mas até o momento, a estratégia do EI tem sido mais eficiente.

Há algumas razões para isso. Uma delas é a impopularidade da política externa sob a liderança do presidente Barack Obama. Nos EUA, a economia se fortalece e a adoção funcional do programa de saúde de Obama melhorou de maneira consistente seus índices de aprovação, mas os desafios na área da política externa tornaram-se o principal motivo de críticas dos republicanos ... e de muitos membros da equipe de Hillary Clinton. 

Além disso, tem havido divergências públicas com aliados na região: os países do Golfo que se uniram aos americanos no combate e um confronto particularmente feroz com o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu. Tudo isso implica que há uma disposição mínima de dar ao presidente americano o benefício da dúvida a respeito de sua estratégia em relação ao EI, e nenhuma paciência quando os desafios se concretizam.

A segunda razão é o terreno fértil de apoio ao EI em diversas áreas da região. O grupo não está criando novos califados autônomos - o EI não tem a capacidade organizativa nem os recursos para tornar isso viável -, mas se aproveitando do enfraquecimento de governos sem legitimidade ou os recursos para garantir que a estabilidade crie vácuos de poder em toda a região, gerando oportunidades para o grupo terrorista gerar células. O EI conseguiu uma presença significativa na Líbia, na região do Sinai no Egito, e no Iêmen. Prevejo que o grupo aumentará seu poder em áreas dotadas de um governo mais forte, onde se encontra um enorme contingente de refugiados do Iraque e da Síria: Jordânia, Líbano e Turquia.

E a terceira é a Síria, onde os desafios políticos encontrados pelos EUA para trabalhar com o presidente Bashar Assad (e seus aliados, Irã, Rússia e Hezbollah), ou conseguir derrubá-lo, enfraqueceram consideravelmente a estratégia militar contra o grupo, muito mais do que no próprio Iraque. Considerando que a maior parte das forças e do armamento pesado do EI continua no Iraque, pelo menos por enquanto, este não chega a constituir um desastre imediato. Mas é um grave problema em relação ao esforço fundamental.

Isso levou a algumas mudanças apressadas do governo Obama, na tentativa de convencer os críticos de que está fazendo todo o possível para garantir a derrocada do EI. O que, evidentemente, poderá atrair novas acusações de incoerência e inconsistência. Se a mensagem básica que o governo está querendo transmitir é que os aliados precisam se empenhar muito mais no que diz respeito ao trabalho pesado (conforme a intenção americana no início dos bombardeios), precisará enviar a mensagem mais clara possível de que os esforços americanos esbarram em sérias limitações. Se o inimigo tiver de ser derrotado (o que é cada vez mais o caso), será preciso que todas as opções se encontrem sobre a mesa e imediatamente.

Isso levou a uma intensificação das atividades da Casa Branca na semana passada, com o objetivo de recalibrar e impulsionar o combate ao EI. O objetivo era responder a todas as críticas, pois, com a forte reação não há condições de manter a estratégia inicial. No Iraque, existe a pressão do cronograma: o que seria um ou dois anos para “derrotar” o EI em sua base de operações de Mossul, agora mudou para três meses. Os bombardeios reduziram as forças e a capacidade militar do EI na região, e os EUA vêm trabalhando duramente para treinar e equipar da melhor maneira possível os soldados iraquianos. 

Além disso, se a operação continuar, os EUA se preparam para aumentar sua participação, enviando forças especiais nas linhas de frente a fim de ajudar a coordenar os combates, as séries de bombardeios (embora ainda não tenham se engajado ativamente no combate, no sentido técnico).

A Casa Branca está modificando também seus métodos militares no fronte da Síria, preparando-se para autorizar, juntamente com o governo turco, o treinamento e o equipamento dos rebeldes sírios. Isso incluiria também permitir que estes solicitassem ataques aéreos sobre alvos do EI.

E há ainda o esforço mais amplo, além do aspecto militar: a realização de uma cúpula em Washington com o objetivo de analisar os elementos que levaram ao surgimento do violento radicalismo, buscando melhorar a governança, a educação, a ajuda humanitária - e até mesmo lançar uma campanha na mídia social para que o público contribua com suas ideias na questão do combate ao extremismo.

Tudo isso é problemático. O foco político-econômico é sensível, mas de longo prazo, e, portanto, destinado a ter escasso apelo, considerando os desafios imediatos do EI. Também atraiu amplas críticas, juntamente com o fato de o governo Obama insistir numa linguagem cautelosa (que evita cuidadosamente o termo radicalismo islâmico), em razão do enorme ceticismo em relação à falta de uma estratégia coerente. 

A estratégia da Síria enfrentou uma forte resistência por causa do número limitado e da falta de coesão dos rebeldes, a probabilidade de suas armas acabarem nas mãos do próprio EI, e o potencial de ampliação da luta contra Assad, entrincheirado em seu esquema de defesa. 

Os três desafios continuam graves, e a ideia de que os iraquianos, com alguns aliados, possam retomar Mossul nos próximos meses parece pouco plausível, dada a situação em que o exército iraquiano se encontrava ao ser derrotado há seis meses, e à sua escassa disposição a um duro combate urbano no coração do território sunita. Em suma, a operação de Mossul não é exatamente de responsabilidade dos americanos.

A boa notícia é que a extraordinária brutalidade do EI e sua expansão criaram uma forte reação negativa nos países árabes, fortalecendo a disposição das forças regionais a dar seu apoio à luta contra o grupo radical. Enquanto seus esforços enfraquecem, pelo menos há mais coordenação e o moral é mais alto. Os esforços no longo prazo para humilhar o EI também terão sucesso. 

Mas há um risco maior para o governo Obama, que neste momento se mostra mais firme “liderando na linha de frente”, principalmente graças à nomeação do novo secretário da Defesa, Ash Carter (abrindo ainda as conversações sobre a expansão do prazo para a presença americana no Afeganistão, e fornecendo armas à Ucrânia). No curto prazo, pelo menos, criou-se uma pressão maior.

Rússia. Esta foi uma boa semana no campo de batalha para o presidente Vladimir Putin. Os russos não tinham intenção de permitir que a cidade ucraniana de Debaltseve, um importante centro de comunicação, cercada, permanecesse no “meio” do seu território. Eles atacaram com um poder de fogo muito superior e obrigaram os ucranianos a se retirar. Desse modo, violaram o cessar-fogo, um problema sério (mas não uma surpresa) para a chanceler alemã, Angela Merkel, e uma humilhação para o presidente ucraniano, Petro Poroshenko.

Ele prometeu declarar a lei marcial se o cessar-fogo fosse violado, mas os alemães e os franceses se opuseram, e Poroshenko teve de recuar. Ele pediu, então, às forças de paz da ONU que ajudem a deter o conflito: a Rússia se opôs e a iniciativa fracassou. O cessar-fogo prevê a retirada de armas de fogo da principal zona de conflito. Mas Kiev e a Otan afirmam que mais armas russas estão sendo introduzidas na área. Ao mesmo tempo, Poroshenko não dispõe do apoio político para conceder garantias de uma maior autonomia a Luhansk e Donetsk, como prometia o cessar-fogo. Portanto, a posição russa será que a Ucrânia está violando o acordo.

A posição de Poroshenko melhorou em relação à anterior ao cessar-fogo, pois a Ucrânia garantiu recursos consideráveis do FMI e dos aliados ocidentais e tem havido uma importante redução dos combates ao longo das fronteiras. Mas os recursos não ajudam Poroshenko no curto prazo; a população ucraniana está preocupada com a possibilidade de perder a guerra ... e poucos acreditam que a redução dos combates continuará.

Na realidade, não vejo a possibilidade de o cessar-fogo, na atual situação, se manter por muito tempo, pois os problemas políticos fundamentais não foram resolvidos do ponto de vista do Kremlin. Os russos querem uma Ucrânia neutra com poder de veto sobre a Europa e o alinhamento da Otan. E está longe disso. Também querem um território consolidado no sudeste que possam governar com facilidade. Estão mais perto disso, mas isso provavelmente exigirá pelo menos a tomada do Porto de Mariupol. Portanto, ainda prevemos uma grave escalada.

Por enquanto, isso significa uma nova rodada de sanções americanas e europeias. As sanções do “terceiro pacote”, que preveem o corte do crédito russo, são consideradas pelos aliados demasiado perigosas e contraproducentes. 

Os EUA estão estudando mais ativamente o fornecimento de armas para os militares ucranianos, mas a Casa Branca acha (corretamente) que isso poderá levar a uma escalada russa. É possível que ela siga em frente, dada a necessidade de mostrar que está fazendo alguma coisa.

E vale a pena mencionar a companhia antivírus Kaspersky. Considerada um instrumento estratégico e cada vez mais importante pelo Kremlin, ela divulgou notícias excluindo o apoio da agência de segurança nacional a sistemas de espionagem que penetram nos computadores e não podem ser retirados com o risco de destruí-los. As notícias se concentram na degradação de sistemas na Rússia, China, Irã e Venezuela. 

Trata-se de um considerável prejuízo para a capacidade de vigilância dos EUA, e um trunfo no que se refere à utilidade da Rússia para seus aliados, e uma medida importante para uma maior destruição da segurança da internet. A Karspersky está prestes a tornar-se um elemento estratégico para a Rússia e aliados. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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