Desconfiança norteia política externa de Israel

Segundo especialistas, a direita israelense, representada pelo premiê Binyamin Netanyahu, não acredita em um acordo de paz com palestinos

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2011 | 03h05

A divisão de Jerusalém, os assentamentos judaicos no leste da cidade e na Cisjordânia e o retorno para casa dos refugiados árabes expulsos na guerra de 1947-1948 são os principais pontos de disputa entre palestinos e israelenses. Mas o que emperra as negociações e define a política do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu é a desconfiança.

Após mais de quatro décadas de negociações de paz, a direita israelense não acredita que um acordo seja possível. O argumento é o não reconhecimento de Israel como "Estado judaico" - no discurso à Assembleia-Geral da ONU, na sexta-feira, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, voltou a afirmar que isso "afetaria a vida do 1,5 milhão de muçulmanos e cristãos cidadãos israelenses".

"A maioria dos judeus defende a solução de dois Estados. Mas como é possível negociar com alguém que não reconhece a sua existência?", diz o cientista político Heni Ozi Cukier. Se a paz não é possível, é preciso garantir o domínio e a segurança da população judaica.

Com base nisso, os conservadores na Knesset (Parlamento) justificam sua posição nos principais pontos de disputa. Sem um acordo de paz, acreditam, têm o direito de expandir o domínio sobre terras anexadas na guerra de 1967. Dar aos refugiados, cerca de 4 milhões de pessoas, o direito de retorno, argumentam, seria como restabelecer um Estado palestino único - os judeus, que hoje são 5,8 milhões dos 7,7 milhões de israelenses, seriam minoria.

A esquerda e o centro acreditam que a paz é possível e, portanto, defendem a retirada de Israel da maioria das áreas ocupadas na Guerra dos Seis Dias, em 1967 - uma exigência dos palestinos, que Netanyahu classifica como "indefensável".

"É muito fácil encontrar declarações de extremistas e tentar provar que eles querem nos destruir, mas isso reflete de fato o desejo de nossos vizinhos? Não acredito nisso. A iniciativa dos palestinos na ONU não é pela destruição de Israel, mas porque, depois de décadas de negociações, eles perderam a confiança de que é possível chegar a um acordo de paz, assim como os israelenses", diz Gershon Baskin, fundador do Centro Israel-Palestina para Pesquisa e Informação, consultor nas negociações de paz do ex-premiê Yitzhak Rabin, assassinado em 1995.

Baskin explica que, embora tenham sido alocados a Israel 55% do território original, pela ONU, após a guerra de 1948 o país assegurou 78% das terras. "É sobre esses 22% restantes que os palestinos tentam ter seu Estado e Israel avança com os assentamentos."

Os palestinos partem do princípio de que todas as terras ocupadas por Israel em 1967 pertencem ao futuro Estado palestino. O que for negociado, a partir daí, deve ter recompensas. Isso inclui Jerusalém Oriental, que demandam como capital do Estado da Palestina. "O fato é que nenhum dos lados está preparado para fazer concessões", resume Cukier.

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