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Desocupação de reduto opositor deixa mais de 20 mortos na Ucrânia

O Estado de S.Paulo

19 Fevereiro 2014 | 06h 45

Após liberação de parte de empréstimo russo a Kiev, polícia faz ofensiva para esvaziar praça, no mais sangrento dia de protestos contra governo

KIEV - Confrontos entre milhares de manifestantes contrários ao governo do presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, e a polícia de Kiev deixaram na terça-feira, 18, pelo menos 25 mortos - 16 civis e 9 policiais -, no dia mais sangrento desde que a Ucrânia tornou-se independente, em 1991. Entre os feridos, há pelo menos 400 manifestantes e 159 policiais, segundo o Ministério do Interior e líderes da oposição.

Após dias de calma e uma anistia negociada entre as partes, o confronto surpreendeu pela fúria de ambos os lados. Um anúncio conjunto do Serviço de Segurança do Estado e do Ministério do Interior demandando que os manifestantes encerassem os "distúrbios" até o fim do dia - medida exigida pela Rússia quando liberou US$ 2 bilhões como parte de um empréstimo para a Ucrânia - foi apontado como causa do confronto.

Por volta das 18h, no horário local, a polícia começou a dispersar os manifestantes da Praça da Independência, no centro da capital, usando três caminhões de água para destruir as barricadas. Os manifestantes reagiram jogando pedras e coquetéis molotov contra os policiais. O governo fechou as estações de metrô e ameaçou restabelecer a ordem de forma arbitrária ao dar um ultimato para que os manifestantes encerrassem os confrontos.

"Se os distúrbios continuarem, não teremos outra alternativa a não ser agir mais de forma mais enérgica. Ficaremos obrigados a impor a ordem por todos os meios que a lei permite", afirmou, em comunicado, o ministro do Interior, Vitali Zakharchenko.

Temendo a ação violenta da polícia, o líder opositor Vitali Klitschko pediu que as mulheres e as crianças deixassem a praça. "Nós não vamos a lugar algum. Esta é uma terra de liberdades e vamos defende-la", disse o opositor para cerca de 20 mil manifestantes depois de a ação policial começar.

Segundo o médico Oleg Musi, também contrário ao governo, um dos manifestantes feridos precisou ter a mão amputada e alguns sofreram traumatismo craniano. "Um policial morreu quando era levado para o hospital. De acordo com as primeiras informações, ele tomou um tiro no pescoço", afirmou o Ministério do Interior.

Foi o primeiro episódio de violência em Kiev em mais de três semanas. No começo da tarde, manifestantes marcharam em direção ao Parlamento, numa manobra para manter a pressão sobre Yanukovich, exigindo que ele abra mão dos poderes presidenciais.

Quando foram impedidos de avançar por uma linha de caminhões, cerca de 100 metros antes do prédio, os manifestantes atiraram pedras na polícia. Coquetéis molotov incendiaram pelo menos dois caminhões policiais. As autoridades responderam disparando bombas de efeito moral de outros veículos que formavam a barreira e do topo do prédio para tentar dispersar a multidão.

Em Lviv, reduto dos opositores no oeste da Ucrânia, os prédios da administração local e da polícia regional foram ocupados na noite de hoje por cerca de 500 manifestantes, de acordo com a agência de notícias AFP. O presidente ucraniano enfrenta protestos de rua liderados pela oposição desde que desistiu de assinar um pacto comercial com a União Europeia, em novembro, e optou por estreitar os laços com a Rússia, que dominava a Ucrânia na era soviética.

Reações

Os Estados Unidos exigiram que Yanukovich coloque um fim à violência em Kiev. "Continuamos condenando a violência nas ruas e o uso excessivo da força por qualquer um dos lados. A força não resolverá a crise", afirmou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney. No fim da noite, o vice-presidente Joe Biden telefonou para Yanukovich para pedir calma na repressão aos protestos.

A Alemanha ameaçou aplicar sanções unilaterais contra os responsáveis pelo "banho de sangue em Kiev". "Uma escalada da violência é a última coisa que o país precisa", afirmou o ministro alemão das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, em comunicado. / REUTERS, AP e EFE