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Detenção deve dificultar estratégia de volta à presidência

Andrei Netto - Correspondente / Paris

01 Julho 2014 | 22h 30

Para cientistas políticos, o fato de Sarkozy ser citado em casos judiciais inviabilizará sua agenda política

PARIS - A prisão preventiva de Nicolas Sarkozy ocorre no momento em que o ex-presidente ensaiava um retorno à vida pública. Ele poderia se candidatar à presidência da União por um Movimento Popular (UMP, de centro-direita), no que seria o primeiro passo de uma estratégia política mais ambiciosa: a reconquista do Palácio do Eliseu em 2017.

A vaga no comando da UMP se abriu no dia 15 porque o então presidente do partido, Jean-François Copé, foi envolvido em denúncias de notas frias na campanha presidencial de 2012, em que Sarkozy perdeu para François Hollande. Nessas duas semanas, os ex-premiês Alain Juppé, Jean-Pierre Raffarin e François Fillon comandaram a agremiação. E desde então crescia a pressão de militantes sarkozistas por seu retorno ao cenário político, precipitando a quase certa candidatura em 2017.

Mas, para cientistas políticos, os casos judiciais nos quais o nome do ex-presidente é citado complicam sua agenda política e podem até inviabilizá-la. 

Mesmo que a prisão preventiva seja um recurso normal, o dano à imagem pode ser grande. “Devemos ser prudentes, pois tudo depende do desenrolar desse caso”, adverte o cientista político Bruno Cautrès, do Centro de Pesquisa Política, de Paris. “É a primeira vez que um ex-presidente é preso. Talvez estejamos começando a assistir ao epílogo dos casos de Sarkozy.”

Para Cautrès, o ex-presidente pode sucumbir à tentação de jogar a opinião dos eleitores da UMP contra os juízes do caso. Mas, para ele, isso só aumentará a pressão no partido para que o ex-presidente compreenda que o jogo acabou. “Na UMP se instalou uma lógica de ‘tudo menos Sarkozy’, encarnada por Raffarin, Juppé e Fillon”, explica o analista. Ele vê mais chances de o partido se reposicionar mais ao centro, em lugar de brigar pelo eleitorado da Frente Nacional (FN), de extrema direita, caso o Sarkozy seja afastado da disputa.

Para Gaspard Estrada, do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris, ainda que os processos não resultem em condenação, a agenda política de Sarkozy já está sendo perturbada. “Até hoje sua estratégia política era impedir que em seu partido pudesse se criar uma nova liderança capaz de preencher o espaço da oposição. Agora ele não estará acima de seus potenciais rivais na candidatura, mas será mais um deles.”

Para os dois analistas, uma hipótese ainda mais sombria ronda o ex-presidente: a de que um dos escândalos em que está envolvido resulte em condenação. Então a situação de Sarkozy lembrará cada vez mais à de outra personalidade política da Europa. “Há uma ‘berlusconização’ de Sarkozy e da situação de seu partido”, diz Cautrès. “Como Berlusconi, ele está cercado de casos judiciais. Há algo que começa a lembrar o italiano.”