REUTERS/Jose Manuel Ribeiro
REUTERS/Jose Manuel Ribeiro

Diana contra as minas: a causa de uma princesa que mudou o mundo 

Há 20 anos, alguns meses antes de sua morte, a princesa de Gales visitou Angola, caminhou por um campo minado e colocou o problema das minas terrestres na pauta dos governos do mundo todo

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

23 Abril 2017 | 05h00

Há pouco mais de 20 anos, a então mulher mais famosa do mundo caminhava por um campo contaminado por minas terrestres em Angola diante de uma centena de jornalistas. A atitude de Diana, princesa de Gales, mudaria para sempre a maneira como o mundo lidava com o problema das minas terrestres, dando a ele mais visibilidade e o comprometimento de mais de 160 governos com um tratado para extinguir o armamento. 

Vinte anos depois, os ganhos foram astronômicos e o número de mortes por esse tipo de artefato caiu de 20 mil para 2 mil ao ano. Mas o problema não foi totalmente resolvido e em pelo menos 40 países, incluindo Angola que recebeu a visita da princesa, ele afeta a vida de milhares de pessoas diariamente. 

Em janeiro de 1997, a ida da princesa ao país, escolhido por seu triste histórico de guerra civil e por ter o maior número de amputações de vítimas das explosões dessas minas, atraiu a atenção internacional. As fortes imagens de Lady Di caminhando pelo campo minado e pelas ruas destruídas pela guerra tornaram-se algumas das mais importantes do fim da vida da princesa, que morreria em um acidente de carro em agosto daquele ano. 

Elas também tornaram quase impossível para muitos governos, incluindo o britânico, não se comprometer com o acordo de descontaminação de minas antipessoais, conhecido como Tratado de Ottawa, assinado também em 1997. Com ele, os países signatários estão obrigados a extinguir todas as minas antipessoais em seus territórios até 2025. 

O britânico Paul Heslop morava em Angola na época e chefiou a equipe da ONG Halo Trust que acompanhou e deu apoio a Diana naquele dia. Especialista em descontaminação de minas, ele lembra que, há 20 anos, havia ainda muita discussão se as minas deveriam ou não ser banidas, se o acordo seria ou não aprovado pelos países. Tudo mudou a partir daquele dia.

A ideia de levar a princesa ao país, que partiu do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, era engajar a mídia no problema. “Foi um movimento muito sábio do ponto de vista de relações públicas uma vez que, entre tantos fatores, funcionou. Vinte anos depois ainda estamos falando sobre a visita”, lembrou, em entrevista ao Estado. 

Heslop é hoje chefe de programas do Serviço de Ação de Minas da ONU (UNMAS). Ele lembra a mistura de sentimentos que vivenciou naquele dia, ao receber Diana. “Em termos de experiência pessoal, eu tinha a mulher mais famosa do mundo vindo nos visitar, e era o responsável por isso”, conta. O especialista tinha a oportunidade de mostrar a ela e ao mundo o trabalho que ele e a ONG conduziam naquele país. 

Depois de caminhar por um corredor de segurança dentro do campo ativo de minas terrestres de Huanbo, Diana apertou um botão que detonou um dos explosivos diante de um público de cerca de 100 jornalistas internacionais. 

Heslop recorda toda a tensão daquele momento. “Era a mulher mais famosa do mundo e toda a cobertura midiática junto. Se alguma coisa saísse errado eu seria lembrado para sempre disso. Era uma mistura de empolgação e medo.” 

O nervosismo não era só dele. “Você já visitou um campo aberto contaminado de minas terrestres? Ela estava, sim, nervosa e muito assustada. Acho que havia cerca de 90, 100 jornalistas tirando fotos, gritando perguntas. Assim que ela desembarcou, estava muito nervosa e tímida”, lembra o especialista. 

À medida que o dia foi passando, segundo Heslop, a visitante ilustre foi ficando mais tranquila. “Ela começou a ver nosso comprometimento com o que estávamos fazendo, a paixão que havia pela causa, que faríamos de tudo para mantê-la em segurança e assegurar que ela tivesse todas as informações de que precisasse para que pudesse ser uma boa embaixadora para o que estava acontecendo”, conta. 

“Foi um dia muito bom. Ela estava bem nervosa no começo, mas também se fosse a minha primeira vez em um campo com minas eu também estaria nervoso, ainda mais fazendo tudo aquilo diante da TV.”

Nos primeiros seis meses de trabalho de Heslop e a ONG em Huanbo, cidade visitada por Diana, ele contou que foram removidas 6 mil minas terrestres. “Em 1994, havia mais de um acidente, em média, por dia”, conta, traçando o contexto da visita de Diana. 

Vídeos e registros da época lembram a resistência do governo britânico com a causa, uma vez que seu Exército ainda mantinha minas terrestres em seu arsenal. Um repórter britânico lembrou a Diana que um dos ministros de seu governo tinha dito que ela estava “desperdiçando bala” ao encampar aquela causa. “Nós estamos apenas tentando chamar a atenção para um problema que atinge o mundo todo. É só isso”, respondeu Lady Di. 

Desde então, 163 países – entre eles, o Brasil – assinaram o tratado. “Mas há ainda cerca de 30 para assinar”, reitera Heslop. Ele lembra que o grande desafio hoje é que muitas pessoas pensam que o problema das minas já foi resolvido, o que não é verdade. Houve uma redução drástica no número de mortes por detonação e o problema não é grande como costumava ser 20 anos atrás. “Mas ainda precisamos de um grande empurrão até 2025 para deixar o mundo livre das minas terrestres.”

O financiamento dessas operações está entre o principal problema. Algum tempo depois da visita de Diana, um frágil acordo de paz falhou e o país voltou a mergulhar em uma guerra civil. 

“Angola poderia, com os recursos certos, ter concluído a limpeza das minas e se declarado uma zona livre delas se o dinheiro tivesse sido gasto nisso”, diz Heslop, lembrando o exemplo de outro país africano, Moçambique. “Meu primeiro país (de atuação) foi Moçambique e fiquei muito orgulhoso, no ano passado, quando ele se declarou uma nação livre de minas.”

Hoje, segundo Heslop, o problema das minas não tem se agravado. Mas uma série de grupos extremistas envolvidos em novos conflitos está utilizando outro tipo de armamento que tem criado um problema semelhante. Heslop explica que grupos como Boko Haram, Al-Shabab e Estado Islâmico estão recorrendo ao IED, um dispositivo improvisado conhecido por suas siglas em inglês. “A maneira como ele é usado é muito similar ao das minas terrestres, ou seja, a pessoa que morre é a mesma que o detona”, explica. 

“Enquanto o número de mortos por minas caiu, em países que são afetados por IED, como Afeganistão, Síria, Iraque, o número de mortos cresce dramaticamente.”

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