REUTERS/Stefano Rellandini
REUTERS/Stefano Rellandini

Diásporas tóxicas ou salvadoras

Algumas constituem uma valiosa fonte de alívio da pobreza em seu país de origem, outras interferem na política

Moisés Naim, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2017 | 05h00

A sangrenta guerra civil no Sri Lanka entre os Tigres de Libertação da Pátria Tâmil e o governo do país durou mais de um quarto de século. Uma boa parte do dinheiro que financiou o grupo era proveniente de tâmeis radicados no Canadá, Reino Unido e outros países. O apoio financeiro da diáspora tâmil contribuiu para prolongar o conflito armado. O mesmo ocorreu na Irlanda do Norte.

Grupos de irlandeses nos Estados Unidos financiaram o Exército Republicano Irlandês (IRA), braço armado da luta separatista que durante quatro décadas fustigou a Irlanda e o Reino Unido. A lista de guerras civis que se intensificam e se arrastam graças à ajuda financeira que a diáspora do país fornece a uma das partes no conflito é longa, dolorosa e mundial. 

Dos Bálcãs ao Chifre da África, da América Central ao Sudeste Asiático, as guerras se prolongam pela intervenção do que na Etiópia chamam de “diáspora tóxica”. Claro que os sanguinários regimes que enfrentam as diásporas são, com frequência, ainda mais tóxicos.

Diáspora, que em grego significa “dispersão”, é um termo originalmente usado como referência aos judeus fora de Israel. Com o tempo passou a ser aplicado também a outros grupos que saíram de seus países e se espalharam pelo mundo. Hoje é usado, de modo um pouco confuso, quando nos referimos tanto aos lugares de destino como a um grupo humano.

A vida no exílio fomenta as relações entre compatriotas na mesma situação, que compartilham a saudade da terra ancestral, características étnicas, afinidades culturais e, evidentemente, o idioma. Comumente isso gera sentimentos de empatia e solidariedade, que, por sua vez, dão a esses grupos uma coesão que lhes permite agir coletivamente.

Alguns se organizam para apoiar iniciativas sociais em seu país de origem e outros se envolvem na sua política. Neste caso, o envolvimento se intensifica quando há revoluções, guerras civis ou conflitos políticos que dividem profundamente a sociedade. Assim, muitas vezes a única oposição real enfrentada pelas ditaduras é a da diáspora, que dispõe de dinheiro e contatos internacionais e, às vezes, triunfa e derruba regimes autocráticos. Foi o caso do aiatolá Khomeini, que, de Paris, impulsionou um movimento que em 1979 derrubou o xá do Irã.

A possibilidade de fazer política à distancia e sem “sujar as mãos”, também faz com que as diásporas se permitam luxos que aqueles que enfrentam um governo autocrático em campo não têm. É mais fácil ir contra um regime repressivo a milhares de quilômetros de distância do que nas ruas do país – ou na prisão por ter se manifestado. Hoje YouTube, Twitter ou Facebook facilitam a política do controle remoto. 

Estudos sobre as intervenções das diásporas na política de seus países de origem concluíram que elas exacerbam a polarização e intensificam a intransigência das partes, o que intensifica e prolonga um conflito. Claro que a intolerância não é monopólio das diásporas e é mais uma característica básica dos tiranos.

As diásporas não só intervêm na política do seu país de origem, mas em alguns casos influem na política exterior do país onde residem. Nos Estados Unidos os exilados cubanos e o lobby pró-Israel são bons exemplos. Ambos têm tido um enorme sucesso influindo nas decisões de Washington com relação a Cuba e Israel.

O fracassado embargo econômico estabelecido há seis décadas pelos Estados Unidos contra Cuba não teria durado tanto sem a militância eficaz e radical dos exilados cubanos. Ironicamente, também são esses exilados cujas remessas de dinheiro para parentes na ilha que sustentam a economia do país.

Como a cubana, outras diásporas constituem uma valiosa fonte de alívio da pobreza. Mais de 250 milhões de pessoas vivem em um país diferente daquele em que nasceram e uma enorme parcela envia dinheiro regularmente para suas famílias e pessoas próximas. No ano passado enviaram US$ 440 bilhões de dólares, três vezes mais do que a quantia que os governos dos países ricos consagram à ajuda para os países mais pobres.

Para um grande número de países, essas remessas são uma das principais fontes de divisas (em 25 deles representam mais de 10% do tamanho da sua economia). E para milhões de famílias, da Índia à Colômbia e da China ao México, esse dinheiro que chega do exterior é sua principal – quando não a única – fonte de renda.

Há diásporas tóxicas. Mas também diásporas salvadoras. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT EM WASHINGTON

 

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