Direita francesa pede investigação sobre 'falhas de inteligência' em ataques de Toulouse

Mohammed Merah estaria sob vigilância francesa e americana e já teria sido interrogado sobre atividades no Afeganistão e Paquistão.

BBC Brasil, BBC

23 Março 2012 | 00h30

Observadores internacionais e críticos da direita francesa pedem um inquérito sobre possíveis falhas de inteligência após uma série de assassinatos supostamente cometidos por um atirador franco-argelino em Toulouse, no sul do país.

Mohammed Merah - que dizia ter sido treinado pela Al-Qaeda - foi morto por um atirador de elite da polícia nesta quinta-feira.

Foi revelado que ele estava sob vigilância há meses e já estava na lista de pessoas proibidas de voar para os Estados Unidos.

Merah, de 23 anos, era suspeito de ter realizado três ataques separados, matando quatro pessoas em uma escola judaica e três soldados.

Ele disse que agiu para "vingar crianças palestinas" e protestar contra as intervenções militares da França no Afeganistão e em outros países.

Marine Le Pen, a líder do partido de direita Frente Nacional, os assassinatos de Toulouse demonstram que a França "subestimou perigosamente a ameaça do extremismo muçulmano".

'Lobo solitário'

Nesta quinta-feira, oficiais franceses admitiram que Merah foi seguido por agências de inteligência por anos.

Eles dizem que até novembro de 2011 Merah foi interrogado pela agência de inteligência francesa para explicar suas viagens ao Afeganistão e ao Paquistão.

Comentaristas no país e fora dele criticaram os serviços de inteligência por não terem conseguido monitorar Merah suficientemente.

Em resposta, o ministro das Relações Exteriores francês, Alain Juppé, disse que entende "que as pessoas questionem se houve falhas de inteligência. Precisamos de clareza neste assunto".

Separadamente, oficiais em Washington disseram que Merah estava na lista "no-fly", que o proibia de embarcar em um avião para os Estados Unidos.

O oficiais americanos não identificados disseram ainda que o nome de Merah já estava na lista há algum tempo.

O ministro do Interior, Claude Gueant, defendeu o histórico de investigações da agências de inteligência, dizendo que elas localizam diversos extremistas, e que casos isolados como este tornam a defesa difícil.

"Os chamados lobos solitários são adversários desafiadores", disse.

Promessa de repressão

Os policiais que invadiram o apartamento, após quase 32 horas de cerco, teriam sido recebidos a tiros por Merah.

Segundo o promotor François Molins, Merah teria sido morto ao tentar pular por uma janela do apartamento.

"O exame do corpo mostra que ele recebeu um tiro na cabeça, que estava usando um colete à prova de balas e que tinha uma arma coberta por um par de jeans", disse Molins.

"Material para fabricar bombas de gasolina foi encontrado em sua varanda."

Molins disse ainda que uma arma Colt 45 foi encontrada perto do corpo de Merah e que ele teria dado pelo menos 30 tiros assim que os policiais invadiram o apartamento.

O promotor também confirmou que Merah filmou os três ataques que realizou.

Horas antes, o presidente Nicolas Sarkozy disse em um pronunciamento na televisão que tudo havia sido feito para levar o franco-argelino à justiça, mas que foi decidido que não se deveria por mais vidas em risco.

Eke também prometeu repressão àqueles que visitem sites de "ódio ou terrorismo" na internet ou viajassem para outros países para serem "doutrinados" no terrorismo.

Vídeos

Os ataques aconteceram dentro e nos arredores de Toulouse em três incidentes separados durante o mês de março.

No dia 11 de março, o suspeito teria matado um soldado com o qual marcou um encontro dizendo que queria comprar sua motocicleta.

Dias depois, dois soldados foram mortos e um terceiro foi ferido enquanto aguardavam em um caixa eletrônico.

No início desta semana, três crianças e um adulto foram mortos do lado de fora de uma escola judaica.

François Molins diz que autoridades encontraram vídeos no apartamento de Merah mostrando os ataques.

"Estes vídeos são extremamente explícitos, como pudemos verificar ontem, porque o vemos durante um encontro com um soldado no qual ele atirou duas vezes, dizendo a ele:'Você matou meus irmãos, eu matarei você'", afirmou Molins.

"Também podemos vê-lo matando soldados em Montauban em uma cena extremamente violenta e saindo com sua motocicleta enquanto gritava 'Allahu akhbar' (Deus é grande, em árabe)."

Molins disse ainda que também há imagens do massacre na escola e afirmou que todas as conversas de Merah com negociadores da polícia durante o cerco foram gravados e seriam usados em um inquérito. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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