Discurso de ódio agrava crise na Europa

Discurso de ódio agrava crise na Europa

Liberação de verbas e imposição de cotas para refugiados não será suficiente para controlar a situação; bloco precisa enfrentar a xenofobia

Jéssica Otoboni, O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2015 | 05h00

Os discursos de líderes que alertam para o risco da perda dos ‘valores cristãos’ e da ‘identidade do país’ como argumento para não receber refugiados estão tornando mais difícil o caminho dos imigrantes que buscam refúgio na Europa. Na avaliação do diretor executivo do Centro para Estudos da Migração de Nova York, Donald Kerwin, será necessário mais do que investimentos financeiros para o continente superar a atual crise. 

Em meados de setembro, o Parlamento Europeu aprovou o plano apresentado pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, em que se comprometia a receber 120 mil refugiados sírios e iraquianos nos próximos dois anos. Ele declarou que pretendia investir 1,8 bilhão de euros na África para tentar conter a crise migratória que assola o continente. 

Mas mesmo com os apelos de diversos líderes europeus, os ministros das Relações Exteriores do Grupo de Visegrad, formado por Polônia, República Checa, Eslováquia e Hungria, recusaram-se a aceitar o programa e declararam que não receberiam refugiados sírios.

Na avaliação de Kerwin, apesar das propostas do Parlamento, os investimentos “dificilmente serão suficientes” para resolver essa situação. Ele explica que essa postura do Grupo de Visegard, além de Dinamarca e Israel, que se negaram a conceder asilo para os refugiados sírios, é uma consequência do caráter da crise. “O tamanho da população de refugiados e suas condições contribuem para essa resistência.”

Kerwin afirma que, quando se fala em imigração em larga escala, sempre há preocupações econômicas e culturais. No caso da crise atual, os temores e desafios são compostos pelos “discursos de autoridades, que destacam a perda dos ‘valores cristãos’ e da ‘identidade’” dos países, caso forneçam asilo aos imigrantes. 

“Essa postura é irônica, uma vez que o princípio do valor cristão é a hospitalidade a estranhos. Também é irônico que países que escaparam da Cortina de Ferro em um passado não tão distante tenham se tornado campeões da exclusão”, disse, em entrevista ao Estado.

O que ocorre por parte desses países, segundo o diretor, é um ato de “xenofobia e medo de que, se uma grande quantidade de refugiados muçulmanos for admitida, eles tentarão impor a sharia (lei islâmica) em seus novos países”. 

Além disso, parte dos europeus teme que haja terroristas infiltrados nos grupos de imigrantes. Mas Kerwin lembra que esses refugiados estão, na verdade, fugindo do terror na Síria e do Estado Islâmico (EI). 

“Fazer uma travessia desesperada em que se pode perder a vida no caminho e sem garantias de que chegarão ao destino desejado é um modo muito improvável que o EI utilizaria para se infiltrar na Europa.”

Uma forma que o governo da Hungria encontrou para lidar com a crise migratória foi convencer os refugiados sírios que estavam no Líbano a não entrar em seu território por meio de anúncios publicados em árabe e em inglês em jornais libaneses. 

Kerwin lembra que o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, tem destacado a necessidade de preservar os “valores cristãos”, mas ele mesmo não vive de acordo com esses princípios. “Ele está difamando duas religiões ao mesmo tempo”, diz. 

O analista destaca ainda que, mesmo que o Grupo de Visegrad, Dinamarca e Israel não estejam de acordo com a política da UE, a violência de seus policiais nas fronteiras é considera extrema por grupos de direitos humanos. 

“Refugiados deveriam sempre ser tratados de forma humanitária. Não há nada ilegal na lei internacional sobre uma pessoa lutar pela própria vida e procurar proteção em outro país.”

Para entender
UE enfrenta fluxo recorde

A Europa vive uma das mais graves crises migratórias de sua história recente. Segundo a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), são esperados ao menos 1,4 milhão de refugiados entre 2015 e 2016. Trata-se, principalmente, de pessoas que fogem de conflitos, guerras e situação de pobreza em países da África e do Oriente Médio. A maioria tenta chegar à Europa cruzando o Mar Mediterrâneo em arriscadas travessias feitas em botes precários. As operações geralmente ocorrem com a mediação de traficantes de pessoas. No mês passado, a ONU afirmou que 2,7 mil pessoas morreram nessas travessias entre janeiro e setembro, 500 a mais que no mesmo período do ano passado.

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