Jamil Chade, Estadão
Jamil Chade, Estadão

Discurso de Trump leva a aperto na repressão em países da Europa

Imigrantes alegam que propostas de líder americano realimentam ódio aos EUA

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL / BELGRADO, O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2017 | 05h00

BELGRADO - Mesmo questionado pela Justiça dos EUA, o veto do presidente Donald Trump a cidadãos de sete países de maioria muçulmana inspira novas restrições nas leis de imigração pela Europa e amplia entre os imigrantes e refugiados o ódio contra os Estados Unidos. 

Nesta semana, o governo húngaro de Viktor Orban anunciou que introduzirá novas leis contra estrangeiros, com a possibilidade de que imigrantes ilegais sejam trancafiados em abrigos por tempo indeterminado, sem autorização para sair nem de dia. A medida vale mesmo para pessoas que tenham saído de países em guerra, o que seria uma violação das regras internacionais. 

Nas últimas semanas, os húngaros reduziram de forma constante o número de pessoas que aceitam por dia para que tenham seus casos examinados pelas autoridades. Enquanto milhares aguardam para entrar na Europa, a Hungria aceita apenas cinco casos por dia, com a possibilidade de que rejeite todos. 

Em Budapeste, diplomatas confirmaram ao Estado que a decisão de apresentar a nova proposta pretende aproveitar da tendência estabelecida por Trump. Para o porta-voz do governo húngaro, Zoltan Kovacs, “a mudança de percepção dos EUA ajudou a avançar suas próprias ideias”.

Em janeiro, Orban festejou em discurso a chegada do americano ao poder. “A era do multilateralismo acabou”, disse. Em uma ligação telefônica, Trump convidou o húngaro para uma visita oficial. Budapeste acredita que toda a Europa começa a adotar políticas parecidas com as que Orban vinha sugerindo desde 2015. “O que foi denunciado como insano agora faz parte da agenda”, disse Kovacs.

A “agenda” da qual ele fala é a da reunião de cúpula do bloco em Malta, na semana passada, quando líderes debateram a possibilidade de criar campos de refugiados e de imigrantes no Norte da África. Ainda não existe uma decisão e, entre ativistas de direitos humanos, muitos acusam a Europa de não dar sequer a possibilidade para que refugiados apresentem seus casos. 

“A ideia é mandá-los para um lugar seguro, sem trazê-los para a Europa”, explicou o ministro do Interior da Alemanha, Thomas de Maizière. A partir desses centros, apenas aqueles que possam ser considerados refugiados seguiriam para a Europa. 

Alguns atentados terroristas na Europa foram cometidos por terroristas que usaram o caminho dos refugiados para entrar no continente. Por isso, serviços de inteligência do bloco passaram a alertar governos sobre o risco de manter essas rotas abertas. Outra constatação é que grupos populistas passaram a manipular a questão migratória, mostrando como os atentados seriam um “resultado” dessa política de portas abertas. Na França e em outros países, grupos de extrema direita ganham força com esse discurso. “O fluxo migratório e a incapacidade de dar uma resposta desestabilizaram a Europa”, diz Michel Saint-Lot, representante da Unicef em Belgrado. 

Recompensa. A questão da segurança não pode impedir que um refugiado legítimo se apresente em uma fronteira para ter seu caso avaliado. Informalmente, os campos de acolhimento na Sérvia já são um esforço europeu para manter os estrangeiros fora do bloco. Stephane Moissaing, chefe da missão da ONG Médicos Sem Fronteiras na Sérvia, relata como a barganha entre Bruxelas e Belgrado envolve até números reais de pessoas que estão do outro lado da cerca, barradas pela Hungria. 

“A UE queria que a Sérvia recebesse 12 mil pessoas. Mas Belgrado aceitou apenas 6 mil”, disse Moissaing. “Os centros de acolhimento estão lotados e o número real de migrantes e refugiados chega a 8 mil”, disse o francês. Sua entidade criou uma estrutura para cuidar daqueles que estão fora dos centros oficiais, oferecendo banho, roupa e tratamento médico. 

De acordo com ele, a Sérvia precisa convencer Bruxelas de que o país é um “bom aluno” se quiser entrar na UE. Mas, ao mesmo tempo, autoridades locais não estão dispostas a dizer à população que o compromisso com 6 mil estrangeiros já foi elevado a 8 mil. Em abril, o país terá eleições gerais e, como nos EUA, a imigração será tema central. 

Entre os refugiados e imigrantes, o sentimento de incerteza é ainda mais aprofundado diante do exemplo estabelecido por Trump. “Ele (Trump) é um louco”, afirma Ibrahim, iraquiano de 54 anos num dos centros de acolhimento da Sérvia. Para ele, o dano à imagem já foi feito, mesmo que a Casa Branca desista das medidas. “Ele está dizendo a todos os americanos que somos terroristas, que países inteiros são terroristas. Só pode ser um louco. Estamos fugindo dos terroristas. Perdi tudo o que eu tinha por conta do Estado Islâmico. Como é que eu, agora, sou visto como terrorista?” 

Na cabeça dos refugiados e imigrantes, Trump está criando “inimigos” e “jogando muita gente para o radicalismo”. Três afegãos em Belgrado temem que seu país acabe sendo colocado na lista dos países vetados. “Não queremos ir para os EUA. Mas, se essa lista for colocada em operação, meu medo é que outros países também a adotem e ela vire um padrão”, disse Abdullah, ex-professor de geografia em Herat.

 

Questionados se a rota dos refugiados também era usada por terroristas, os estrangeiros admitem que sim. “Ninguém aqui tem documentos. Podem inventar o que quiserem. Claro que tem gente que não é refugiado. Mas o que fazemos com aqueles que são vítimas como eu?”, perguntou Abdullah.

 

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