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RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADÃO

Discursos, contrabando e beisebol

Redator chavista vira macrista, costureira envia remédios e guitarrista cria time em Buenos Aires

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Rodrigo Cavalheiro, correspondente / Buenos Aires,
O Estado de S. Paulo

27 Março 2016 | 05h00

BUENOS AIRES - Jesús Sánchez, de 25 anos, redigiu discursos chavistas para o ministro da Justiça, Miguel Rodríguez Torres, entre 2013 e 2014. Nos dois anos anteriores, esteve na pasta da Agricultura. “Depois de um tempo, percebi a corrupção. Escrevia o discurso que eles achavam que deviam dizer. O que ocorreu, em fevereiro de 2014, me fez acelerar a decisão de sair”, diz, referindo-se à onda de protestos antigoverno que terminou com 43 mortos. 

Já como opositor, decidiu complementar a formação na Argentina. Sem emprego na área de ciência política, trabalhou em um call center, em vendas e como garçom até conseguir este ano uma vaga em sua área no governo de Buenos Aires, administrada pelo Proposta Republicana (PRO), partido do presidente Mauricio Macri. 

“Fiz três entrevistas e não pesou o fato de ter trabalhado para o chavismo. Foi positivo. Provavelmente o inverso não teria ocorrido”, diz Sánchez. Ele discorda das demissões de funcionários públicos feita por Macri, sob alegação de que seriam “nhoques” (empregados que recebem sem trabalhar por vínculo político). “Foram demitidos pelo menos cinco amigos kirchneristas, mas a preferência não afetava seu trabalho.” 

Yone Evies é uma “contrabandista de medicamentos sem fins lucrativos”. Essa costureira venezuelana de 34 anos, radicada em Buenos Aires há 8, manda sacolas sob encomenda para compatriotas que não encontram remédios no país. 

Há dois anos, ela monitora compatriotas prestes a viajar para seu país natal que aceitem levar as encomendas. “Muita gente tem medo de ser parada no aeroporto, mas já enviei umas 25 sacolas com remédios. As pessoas sempre podem encontrar um cantinho na mala.” Ela diz não recorrer ao envio tradicional por correio por falta de dinheiro e medo de interceptação. “Já fiquei doente aqui, preocupada porque soube de muitas crianças e até adultos que morreram por falta de medicamentos.”

Félix Ovalles Martínez, de 34 anos, montou o próprio time de beisebol para matar a saudade do esporte. Em 2014, percebeu que conterrâneos em equipes amadoras de Buenos Aires eram suficientes para uma equipe. O guitarrista e produtor musical criou então o Criollos, que na estreia ganhou a liga metropolitana. Na América do Sul, só a Venezuela leva o esporte a sério e até exporta jogadores para os EUA. “Não foi tão fácil assim, há cubanos e dominicanos”, salienta Ovalles, ao ser questionado sobre a conquista. 

Há 10 anos em Buenos Aires, ele espera que a visita de Barack Obama atraia investimentos e permita ao país voltar ao mercado internacional. Ele também enxerga na aproximação um plano comercial para o pós-chavismo. “O país está destruído, é um cenário muito atraente para os dois. Sem dúvida, a oposição venezuelana se fortalecerá com essa aliança.”

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