Disparos varam a madrugada em Cabul

Após dia da maior ofensiva do Taleban desde 2001, Afeganistão conta 52 mortos

Adriana Carranca, Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2012 | 03h02

CABUL - Cabul viveu ontem a madrugada mais violenta desde o início da guerra, em 2001. Após o domingo de combates, a capital afegã transformou-se em campo de batalha. Explosões e disparos de artilharia pesada foram ouvidos durante a noite em duas áreas: Wazir Akba Khan, bairro mais rico e vigiado da cidade, que abriga embaixadas, prédios do governo e o palácio presidencial, e as imediações da Avenida Darul Aman, onde está o Parlamento.

Desde 13h30 de domingo (6 horas da manhã de domingo em Brasília), combatentes do Taleban ocupavam prédios em pontos estratégicos da capital e de pelo menos três províncias: Logar, Nangarhar e Paktia. Foram necessárias 18 horas de confrontos ininterruptos para as forças de segurança afegãs e da Otan controlarem a situação.

O Estado testemunhou os confrontos na área do Parlamento. As forças de segurança afegãs cercaram o local por terra e moradores tiveram de ser retirados de suas casas. Helicópteros da Otan dispararam contra os prédios ocupados. No fim da tarde de domingo, houve um cessar-fogo de uma hora nas imediações da Darul Aman.

Quando se imaginava que os insurgentes estavam vencidos, quatro explosões simultâneas quebraram o silêncio. Os militantes estavam armados com foguetes RPG e granadas. O som dos helicópteros e de tiros voltaram a Cabul.

Destruição. Somente na manhã de ontem, os soldados conseguiram entrar nos locais controlados pelos insurgentes. Na invasão, as paredes inacabadas dos prédios ficaram marcadas por tiros. Algumas ruíram. Corpos ensanguentados de pelo menos quatro dos milicianos estavam na cobertura, onde haviam se refugiado do avanço das tropas afegãs.

Ao todo, pelo menos 16 insurgentes morreram em Cabul. No total, foram 36 mortos, também em Logar, Nagahar e Paktia. Também foram mortos 11 membros das forças de segurança afegãs e 5 civis, segundo o Ministério do Interior.

O ministro do interior do Afeganistão, o general Bismillah Khan, informou que há evidências que os ataques foram feitos pela rede Haqqani, grupo paramilitar com base no Paquistão ligado à Al-Qaeda. O Pentágono também suspeita do grupo. O comando do Taleban, no entanto, assumiu responsabilidade pelos ataques.

Durante a noite, o Taleban já havia anunciado que os combatentes "lutariam até a morte". Eles seriam suicidas treinados para o martírio, segundo informou um dos porta-vozes do grupo, Zabihullah Mujahid.

A ação serviu como uma estratégia de propaganda do Taleban para minar a confiança dos afegãos no governo e nas Forças Armadas, que se preparam para assumir o país após a retirada das tropas estrangeiras, prevista para 2014.

Entre os afegãos, a sensação era de déjà-vu. Em setembro, como nos ataques do fim de semana, terroristas invadiram prédios também em construção e os usaram como base para atacar a sede da Otan e a Embaixada dos EUA em Cabul.

Os serviços de inteligência, os militares e a polícia não foram capazes de interceptar uma ação simultânea. Ontem, os afegãos questionavam por que o aparato estatal não conseguiu prever mais uma onda de ataques.

Os atentados do fim de semana foram mais ousados do que os realizados em setembro do ano passado. Desta vez, os milicianos atacaram com mais homens e estavam muito mais armados. A grande questão é como o Taleban pôde chegar tão perto de instalações do governo, dos militares e burlar o fortíssimo esquema de segurança de Wazir Akba Khan.

Em editoriais, os jornais locais criticaram o presidente afegão, Hamid Karzai. Em um comunicado, ele atribui os ataques a uma falha dos agentes de inteligência da Otan. Para Karzai, o fato de os terroristas conseguirem se infiltrar entre a população em Cabul e em outras províncias "foi uma falha dos serviços de inteligência, especialmente da Otan, que deve ser seriamente investigada".

Karzai aproveitou para demonstrar publicamente sua confiança nas forças de segurança afegãs, que, segundo o presidente, "evitaram a morte de mais civis e controlaram a situação relativamente rápido".

A oposição ao líder afegão, no entanto, também não economizou críticas a Karzai. "O Taleban, mais uma vez, demonstrou sua força, o que reflete a fraqueza do governo corrupto de Karzai", disse o ex-vice-presidente afegão Ahmad Zia Masud, em comentário à rede Tolo TV.

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