Mariana Bazo/Reuters
Mariana Bazo/Reuters

Disputa entre filhos de Fujimori livra presidente peruano de destituição

Para analistas, o risco de uma eleição antecipada , cenário previsto caso os dois vice-presidentes se negassem a assumir o cargo, foi alto demais para a maioria fujimorista no Congresso

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2017 | 05h00

Uma cisão no fujimorismo vinculada à possível negociação da libertação do ex-presidente Alberto Fujimori, protagonizada por seus filhos Kenji e Keiko, foi decisiva para o presidente Pedro Pablo Kuczynski (PPK) escapar na madrugada da sexta-feira, 22, de um processo de destituição que parecia certo.

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Para analistas, o risco de uma eleição antecipada (cenário previsto caso os dois vice-presidentes se negassem a assumir o cargo) foi alto demais para a maioria fujimorista no Congresso. Se destituíssem PPK, os deputados poderiam, em seguida, perder seus mandatos nas urnas. 

Após mais de 14 horas de debate, houve 79 votos a favor, 8 a menos que os 87 necessários para derrubar o presidente. Dez deputados do partido Força Popular, liderado por Keiko Fujimori, filha do ex-presidente, derrotada por PPK na última eleição, se rebelaram e se abstiveram. Eles estão ligados ao irmão mais novo dela, Kenji.

“Há um núcleo fujimorista muito radical que liderou o processo contra PPK, desde a destituição de seus ministros até o julgamento político”, explicou ao Estado o analista Eduardo Dargent. “Mas já não havia unidade no partido.”

Durante a votação, surgiram rumores de que as abstenções no fujimorismo estavam relacionadas a uma promessa de PPK de libertar o ex-presidente, preso desde 2007 sob acusações de crimes contra a humanidades. Na tarde de ontem, o deputado fujimorista Clayton Galván, do grupo que se absteve, disse ao canal de TV N que Alberto Fujimori telefonou da prisão antes da votação recomendando que ele não votasse. 

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A revista Hildebrandt publicou que Kenji ofereceu a Kuczynski as abstenções. Segundo outra fujimorista, Cecilia Chacón, que votou pela destituição, partiu do governo a iniciativa de oferecer o indulto a Fujimori em troca das abstenções. O governo nega qualquer negociação. 

Na quinta-feira, em meio ao debate no Congresso, Fujimori entrou com um pedido de indulto e a segunda-vice-presidente Mercedes Araóz rechaçou a possibilidade. O deputado Héctor Becerril, do Força Popular, lamentou a decisão dos dez colegas de partido que se abstiveram na votação pela destituição de PPK e afirmou que eles foram enganados pelo governo. “Duvido que (os governistas) deem o indulto, PPK jogou mais uma vez com a esperança. Kenji é um político imaturo, aproveitaram-se dele e de mais congressistas”, afirmou Becerril.

“A libertação de Fujimori é um tema que mexe com os dois lados do espectro político peruano e pode ser manipulada por qualquer um deles”, disse ao Estado o cientista político Arturo Maldonado, da PUC do Peru. “Ao longo de semanas, houve diversos rumores que não sabemos a procedência para confundir a população.” O Força Popular prometeu punir os dez deputados desertores. 

Fatores

A perspectiva de uma renúncia coletiva dos vice-presidentes de PPK, que forçaria a convocação de novas eleições, e a mobilização de setores antifujimoristas temerosos de que o partido mantivesse o poder em vez de convocar eleições, também pesaram para a vitória de Kuczynski. “A instabilidade caso PPK fosse destituído seria inevitável”, diz Maldonado. 

Evidências da Lava Jato contra Keiko também prejudicam a unidade fujimorista. A ex-candidata à presidência teria recebido contribuições de campanha da Odebrecht em 2011. Sua maioria no Parlamento tem lutado para retirar juízes na Suprema Corte e influenciar no Ministério Público. 

Pelo Twitter, PPK prometeu reconciliação. “Peruanos, amanhã começa um novo capítulo em nossa história: reconciliação e reconstrução em nosso país. Uma só força, um só Peru”, escreveu. PPK, que prestou uma consultoria à Odebrecht no valor de US$ 782 mil quando era ministro da Economia de Alejandro Toledo, deve continuar com um baixo capital político. “É um presidente fraco, com denúncias de corrupção. Dificilmente terá facilidade para governar”, disse Maria Luisa Puig, da consultoria Eurasia. / COLABOROU FERNANDA SIMAS

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