SAUL LOEB/AFP
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‘É um tapa na cara dos eleitores de Trump’

Desregulamentação do sistema financeiro pode trazer ‘amnésia coletiva’ sobre crise de 2008, vê ex-autoridade do Tesouro

Entrevista com

Michael Barr, professor e um dos idealizadores da lei Dodd-Frank

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2017 | 05h00

A decisão de desregulamentar parte das operações do sistema financeira é um “tapa na cara dos eleitores” desferido pelo presidente Donald Trump e pode representar um momento de “amnésia coletiva” sobre a crise de 2008, acredita Michael Barr, que foi um dos idealizadores da lei Dodd-Frank.

“A Dodd-Frank deixou o sistema mais seguro”, afirmou Barr, especialista em regulação financeira, que trabalhava no Departamento do Tesouro na época da aprovação da lei, em 2010, e hoje é professor da Universidade de Michigan. A seguir, a entrevista:

Qual o potencial impacto da revogação das medidas impostas pela lei Dodd-Frank?

A direção que o governo pretende adotar é muito perigosa para os consumidores americanos, para os investidores e o sistema financeiro como um todo. As mudanças vão desmantelar a proteção de consumidores, afetar a atuação do Escritório de Proteção Financeira do Consumidor e reduzir muitas das medidas que adotamos para tornar o sistema financeiro mais seguro. Sem elas, será mais fácil para o sistema financeiro assumir riscos como os que levaram à crise financeira de 2008.

Quais são as medidas mais importantes da Dodd-Frank?

Uma das medidas que eles estão atacando é a criação do Escritório de Proteção Financeira do Consumidor, que é uma entidade em âmbito federal que protege famílias americanas de abusos do mercado. Eles também estão atacando a possibilidade de regular o chamado shadow banking, que são entidades que atuam como bancos, mas que não são reguladas como bancos, como bancos de investimentos e grandes conglomerados de seguros. Outro ponto é a autoridade para liquidar uma instituição financeira em dificuldade. 

O governo diz que as regulações representam um peso excessivo sobre os bancos, que compromete sua capacidade de conceder empréstimos.

As provisões que eles estão atacando não têm nada a ver com empréstimos. Quando nós adotamos essas reformas, o sistema financeiro estava saudável e voltou a emprestar. O que eles falam é exatamente o contrário do que ocorreu.

Há o risco de uma nova crise financeira sem o tipo de regulações impostas pela Dodd-Frank?

Sim, há um risco significativo de uma amnésia coletiva baixar em Washington e as pessoas esquecerem as consequências devastadoras da última crise financeira, o que criaria o risco de que ela venha a se repitir.

A Casa Branca também diz que a Dodd-Frank não resolveu um dos principais problemas da crise de 2008, que é a existência de bancos grandes demais para quebrar (too big to fail). 

Um dos objetivos da Dodd-Frank foi tornar o sistema financeiro mais resistente. Se uma empresa enfrentasse dificuldades, haveria uma probabilidade menor de ela explodir o sistema financeiro ou a economia. A Dodd-Frank deixou o sistema mais seguro. As coisas que eles estão tentando fazer agravaria o problema do too big to fail.

O teste de estresse dos bancos criado pela Dodd-Frank também está na mira do governo Trump?

Os republicanos no Congresso apresentaram projetos de lei que eliminam os testes de estresse para todos os bancos, com exceção dos maiores. Se a proposta for aprovada, ela acabará com testes de estresse para grandes instituições regionais, empresas de cartão de crédito ou bancos estrangeiros, que são empresas cujo tamanho pode chegar a quase US$ 500 bilhões.

Durante sua campanha, Trump atacou Wall Street e se apresentou como o defensor de pessoas comuns supostamente exploradas pela elite política e financeira do país. Que tipo de mensagem o anúncio de ontem passa para os seus eleitores?

É um tapa na cara dos que o apoiaram. É uma mudança que vai prejudicar os consumidores americanos, os aposentados, os trabalhadores que estão poupando para sua aposentadoria, as famílias de veteranos de guerra e jovens que estão preocupados com seus débitos estudantis. É uma abordagem totalmente equivocada. 

 

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