REUTERS/Yves Herman
REUTERS/Yves Herman

ECONOMIST: Guerra pelo futuro do Reino Unido ainda não acabou

Violação de regras pelos defensores do Brexit significa que luta para ficar na UE continua

O Estado de S.Paulo

28 Março 2018 | 05h00

Talvez não tenha sido a maneira mais propícia de comemorar o primeiro aniversário, esta semana, da carta de Theresa May que deu início ao processo de saída do Reino Unido da União Europeia. Mesmo quando Jacob Rees-Mogg, notório defensor da saída, ridicularizou os partidários da permanência, comparando-os a soldados japoneses que se renderam apenas 30 anos depois do fim da 2.ª Guerra, o Parlamento debatia um novo escândalo sobre o financiamento da campanha do Brexit, em 2016. 

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O escândalo decorreu de alegações de que dos £ 7 milhões de limite de gastos do Vote Leave (um dos grupos em favor do Brexit), barreira imposta pela Comissão Eleitoral, o grupo doou £ 625 mil para outra organização, o BeLeave. As regras permitiam isso somente se o BeLeave fosse inteiramente independente do Vote Leave. 

No entanto, Shahmir Sanni, que trabalhou como voluntário do BeLeave, veio a público informar que, longe de ser independente, o grupo recebeu instruções sobre o que fazer com o dinheiro. Se for provada a coordenação entre os dois grupos, é crime. O que provoca ainda mais calafrios é que a maior parte do dinheiro teria sido paga para uma empresa de marketing ligada à Cambridge Analytica, envolvida no escândalo sobre uso indevido de dados do Facebook.

A história tem um ângulo político. Boris Johnson, chanceler britânico, e Michael Gove, secretário do Meio Ambiente, eram membros do Vote Leave. Johnson qualificou as alegações de “ridículas” e insistiu que o plebiscito foi vencido legalmente. 

Stephen Parkinson, secretário de Theresa May, também trabalhou no grupo. Sanni relatou muitas das suas ações durante a campanha a Parkinson, que era seu namorado. May resistiu aos apelos para exonerar Parkinson.

Isso tudo é importante? Se o Vote Leave infringiu as regras, isso comprova a ideia de que os partidários do Brexit se comportaram de maneira imoral e irresponsável. No entanto, os que pregavam a permanência gastaram muito mais e se beneficiaram de um prospecto do governo que custou £ 9 milhões e apoiava sua causa.

Com base nas evidências até agora, é difícil concluir que o resultado final de 52% a 48% foi alterado pelo marketing digital, mesmo que habilmente feito. Uma afirmação mais plausível é a de que os responsáveis pela campanha em favor do Brexit enganaram os eleitores alegando que a saída não acarretaria nenhuma desvantagem econômica. Mas os defensores da permanência tiveram oportunidade e dinheiro para desmentir as afirmações na época.

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O fato é que a discussão prosseguirá, mesmo com as negociações sobre a saída em andamento. Dia 23, a UE aprovou a pauta das conversações, juntamente com os termos para um período de transição de 21 meses, após março de 2019. Em evento no dia 26, no Institute for Government, Carolyn Fairbairn, diretora da Confederação das Indústrias Britânicas, elogiou o acordo de transição por propiciar uma maior certeza para as empresas, mas observou que as discrepâncias entre as duas partes sobre um futuro acordo comercial ainda são grandes.

Com base na experiência passada, a Grã-Bretanha deve ter de aceitar as diretrizes da UE e tudo aponta para um acordo de livre comércio um pouco mais amplo do que o que o bloco tem com o Canadá.

Estas questões, além da disputa sobre as despesas de campanha, certamente alimentarão os pedidos de uma votação parlamentar sobre o acordo do Brexit, o que significa a possibilidade de intensificarem os apelos por uma consulta sobre o acordo final. 

Mas um efeito colateral inoportuno é que o caso desvie a atenção de todos os outros problemas políticos. Mesmo um soldado japonês abandonado numa ilha do Pacífico acharia isso desalentador. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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