REUTERS/Hannibal Hanschke
REUTERS/Hannibal Hanschke

Economist: Negociação na Alemanha favorece planos de Macron

Acordo para formar governo alemão ainda depende de aprovação da base social-democrata

O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2018 | 05h00

Após uma maratona de negociações de 20 horas, o partido de Angela Merkel, a União Democrata-Cristã (CDU), seus aliados bávaros da União Social-Cristã (CSU) e os democratas de centro-esquerda do Partido Social-Democrata (SPD), anunciaram um programa comum para uma “grande coalizão”. O documento de 177 páginas foi publicado em seguida, fundamentando os próximos quatro anos de governo.

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Três pontos ainda provocavam divergência: a proibição do uso arbitrário de contratos de trabalho de curto prazo, a paridade entre o seguro-saúde privado e público e uma política mais liberal no caso da reunificação de famílias de imigrantes. 

Quanto à distribuição dos ministérios, o SPD se saiu melhor: Olaf Scholz, prefeito de Hamburgo, deverá ser ministro das Finanças e vice-chanceler, e Martin Schulz – enfraquecido após os resultados medíocres do partido na eleição, assumirá a pasta do Exterior.

Tudo isso é extremamente positivo para o presidente francês, Emmanuel Macron, uma vez que o SPD defende as mesmas teses dele sobre os desequilíbrios na zona do euro e está empenhado numa maior integração da união monetária. O fato de a divisão das responsabilidades do gabinete ser semelhante à do primeiro mandato de Angela Merkel, a partir de 2005, quando o SPD detinha quase o mesmo número de parlamentares que o CDU/CSU, mostra a importância das concessões feitas.

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Com base no acordo, o lado de Merkel fica com um número menor de postos de alto escalão. Horst Seehofer, da CSU, assumirá o Ministério do Interior. Peter Altmaier, o poderoso aliado de Merkel, será ministro dos Negócios. O SPD ficará com a pasta da Justiça e a coalizão CDU/CSU se encarregará de Defesa, Saúde e Educação.

No geral, o acordo pode ser resumido como uma “continuidade expansionista” (o superávit orçamentário da Alemanha está em ¤ 45 bilhões). São previstas melhorias no salário-família e na assistência médica infantil, cortes de impostos, uma ajuda maior aos pensionistas e investimentos na decrépita infraestrutura de internet. Se por um lado as prioridades do SPD se fixam na política social, o CDU/CSU inequivocamente se dedica aos assuntos internos e de segurança. 

A chegada de refugiados será limitada de 180 mil a 220 mil e a reunificação de famílias de imigrantes será limitada a mil por mês, além de “casos de emergência”. O orçamento da Defesa terá um modesto aumento.

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Uma mudança importante é com relação à União Europeia, que está no próprio título do acordo: Uma nova largada para a Europa. Um capítulo de cinco páginas, redigido na maior parte por membros do SPD, promete cooperação estreita com Macron em Defesa e imigração, aumento da contribuição alemã para o orçamento da UE, concessão de mais poderes para o Parlamento Europeu e a transformação do Mecanismo de Estabilidade Europeu em um Fundo Monetário Europeu, “ancorado nas regras que regem a UE” e sob controle parlamentar.

Tudo isso representa um avanço do programa de Macron. Mas dizer algo mais, ao menos nesta fase, seria prematuro. O capítulo reservado à Europa é curto, vago e silencioso em assuntos importantes, como a união bancária. Como ministro das Finanças, Olaf Scholz seria mais diplomático do que Wolfgang Schäuble – é difícil imaginar Scholz endossando a expulsão dos gregos da zona do euro, por exemplo –, mas seus instintos não diferem muito dos de Merkel. 

Oposição. Além disso, antes de o acordo se tornar realidade, os 464 mil membros do SPD terão de dar sua palavra final. O resultado será conhecido em 4 de março. Não se sabe como eles votarão: delegados do partido, no mês passado, acataram o início das negociações numa proporção de 56% a 44% dos votos. 

Os membros do SPD são mais velhos e pragmáticos. Em 2013, 76% deles votaram a favor da participação no governo. Mas o partido está cansado de coalizões com Merkel: os Jovens Socialistas, ala jovem do partido, está fazendo campanha em favor do “não”. Na segunda-feira, surgiu a notícia de que 24 mil pessoas ingressaram no SPD desde o início do ano, muitos para impedir uma nova coalizão.

Se a base socialista votar contra o acordo, ele será desfeito e Merkel terá de formar um governo minoritário ou, com aprovação do presidente da Alemanha, voltar a campo. Mas, mesmo que votem favoravelmente, a sensação de incerteza deve continuar. 

O estresse de alcançar um acordo expôs a fragilidade de toda uma geração de líderes partidários: Merkel, Seehofer e Schulz, todos foram prejudicados pelos resultados medíocres obtidos por seus partidos em setembro e parecem estar em fim de carreira. Todos têm concorrentes jovens e ambiciosos seguindo-os de perto.

O novo governo tem uma maioria muito menor do que a última e, como o maior partido de oposição no Parlamento, enfrentará o ruidoso grupo de extrema direita Alternativa para a Alemanha. Ambos os lados da nova coalizão estão empenhados em mostrar uma discordância mais aberta para preservar sua identidade, o que é bem-vindo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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