AP Photo/Gonzalo Arroyo
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Eleição na Catalunha começa com grande participação

Chave de um pleito que opõe independentistas e unionistas, participação pode chegar a recorde histórico na Espanha; pesquisas indicam empate técnico com vantagem de assentos no Parlamento para separatistas

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL / BARCELONA, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 09h21

BARCELONA - Depois de três meses de intensa crise política, os eleitores da Catalunha vão às urnas nesta quinta-feira, 21, para escolher a nova formação do Parlamento regional e o nome de seu novo governador. A disputa opõe dois blocos, o dos partidos independentistas e o das legendas unionistas, cada um com cerca de 50% das intenções de voto, de acordo com as pesquisas de opinião, unânimes em apontar um empate técnico. Chave do pleito, a participação começou alta, com filas nas seções eleitorais, e pode chegar a recorde histórico na Espanha.

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A mobilização da opinião pública se dá em razão da gravidade da crise política e institucional, a pior do país desde o período da redemocratização, entre 1978 e 1981. Desde a intervenção do governo central, do primeiro-ministro Mariano Rajoy, que destituiu o governador independentista Carles Puigdemont, dissolvendo o Parlamento catalão e convocando o pleito, 50 dias se passaram. A campanha foi uma das mais tumultuadas da história. Isso porque um dos favoritos à vitória, Oriel Junqueras, líder do partido Esquerda Republicana Catalã (ERC), independentista, está preso acusado de rebelião e não pôde participar de comícios e eventos políticos.

Já a outra favorita, a jovem Ines Arrimadas, de 36 anos, líder do partido de centro direita Ciudadanos, contou com uma espiral positiva e pelo virtual derretimento do Partido Popular (PP), de Rajoy, que deve registrar seu pior escore histórico.

Até as últimas horas da noite de quarta-feira e da madrugada, mesmo com a campanha oficial encerrada, militantes de ambos os lados se mobilizaram para influenciar na decisão dos indecisos, que somariam 1 milhão dos 5,3 milhões de catalães e espanhóis autorizados a votar. A questão da participação de eleitores, que pode chegar a 80% dos inscritos - o que seria um recorde nacional -, é uma das mais importantes variantes da eleição. Mas, de acordo com o cientista político e sociólogo Jorge Galindo, a chance de grande migração de eleitores de um lado a outro é pequena. "Estamos em um contexto de polarização muito grande, o que indica que os blocos estão mais ou menos definidos, e o voto está mais ou menos definido de antemão", explica o especialista, indicando que a maior tendência é a migração do voto no interior de cada um dos blocos, mas não do lado independentista ao unionista, e vice-versa.

Em Barcelona, o fluxo de eleitores na manhã desta quinta é forte em escolas e centros de votação. "É importante porque a Catalunha foi muito afetada pelo movimento independentista e esse é um momento de mudança, de retorno ao constitucionalismo, de retorno à lei. Essas eleições são muito importantes para as instituições da Catalunha, da Espanha e até em nível europeu", entende Daniel Lameirinhas, simpatizante do Ciudadanos e de Ines Arrimadas.

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Do lado independentista, a mobilização também é forte. O candidato do ERC era vice-governador de Puigdemont, mas ultrapassou seu ex-chefe, que fez campanha a partir de Bruxelas, onde buscou escapar da prisão na Catalunha. O resultado é que Junqueras tornou-se a referência do movimento separatista e agora tem chances reais de ser escolhido em um futuro Parlamento com maioria pró-secessão como novo governador. A situação lançaria a Espanha em um novo impasse político, já que Junqueras continua atrás das grades e processado pela Justiça. 

"Há políticos que estão no cárcere por defender suas ideias, suas convicções. E se a repressão do Estado não for reduzida, poderemos viver novos ciclos de tensão", diz Bernard Tresserras, 27 anos, militante do ERC, que lamentou a falta de seu líder político na campanha. "Será muito importante saber qual será a resposta do Estado espanhol diante de uma eventual vitória do independentismo. Se ganharmos e o Estado espanhol não fizer nenhum movimento político para devolver a estabilidade à Catalunha, estaremos sujeitos ao retorno da instabilidade."  

 

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