AFP PHOTO / GUILLAUME SOUVANT
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Eleição na França: Velhos operários em dois extremos políticos

Socialistas e extrema direita lutam pelo voto do proletariado francês 

Andrei Netto, Enviado Especial / Lille, França, O Estado de S. Paulo

18 Abril 2017 | 05h00

Durante décadas, operários do setor industrial formaram a base eleitoral dos maiores partidos de esquerda da França, como o Socialista e o Comunista. Nessa época, as regiões industriais e extrativistas do norte do país, na região de Nord-Pas-de-Calais, eram garantia de voto para candidatos progressistas. Ao longo das últimas três décadas, parte desse eleitorado “chão de fábrica” migrou para outro extremo político, a Frente Nacional, liderada por Marine Le Pen. Mas em 2017 esse eleitorado tem nova alternativa: Jean-Luc Mélenchon.

Em Lille e pequenas cidades do norte da França pode ser constatada a ascensão do líder do partido de esquerda radical França Insubmissa. Como os eleitores de Marine Le Pen, a maioria tem um perfil antissistema e adere a Mélenchon na luta contra o que o candidato chama de “mundo das finanças” e a “globalização escravagista”.

Um dos pontos mais mencionados por seus eleitores é a promessa de convocar uma Assembleia Constituinte para fundar uma Nova República, passando da 5.ª, criada em 1958 por Charles De Gaulle, à 6.ª. Segundo o projeto do candidato, sua “revolução pacífica e democrática” resultaria na redução dos poderes do presidente – colocando um fim à “monarquia presidencial” – e na reforma do sistema político, com o reforço do Parlamento e do primeiro-ministro. 

Outro ponto de atração do projeto de Mélenchon é a intenção de retirar a França dos tratados da União Europeia. A nuance é importante: ao contrário de Le Pen, o radical de esquerda não prega o fim do bloco de 28 países, mas a renegociação dos tratados, de forma a acabar com as políticas de austeridade fiscal e garantir maior protecionismo nas fronteiras externas da UE.

Esse é um dos pontos que conquista Reginald Maché, de 48 anos, desempregado. “É um programa urgente, diante da miséria crescente e da crise democrática que enfrentamos. Mélenchon porta a herança do Iluminismo, a tradição do progresso social”, argumenta. “Sair dos tratados é diferente de sair da UE. Os tratados foram ditados por lobbies financeiros que impõem ao povo uma austeridade que ninguém mais quer. Eles favorecem apenas o mundo das finanças.”

Para Jérôme S., trabalhador do setor cultural também desempregado, Mélenchon tem um projeto de sociedade que destoa dos outros candidatos de esquerda nos últimos 30 anos. Por isso está levando o campo “progressista” de volta à disputa presidencial com chances reais de vitória. 

O argumento também é usado por Guillaume Legros, de 37 anos, prestador de serviços para a indústria cultural. “Mélenchon tem um verdadeiro projeto de sociedade. Ele permitirá aos franceses se reencontrarem.”

Em um mês, Mélenchon deixou o quinto lugar nas pesquisas, com 10% das intenções de voto, para se juntar a um quarteto que está em empate técnico na liderança, com cerca de 20% . Suas chances reais de chegar ao segundo turno se devem em muito ao derretimento do candidato do Partido Socialista, o ex-ministro da Educação Benoit Hamon, que hoje registraria o pior desempenho da legenda em décadas (7,5%). A erosão do eleitorado socialista beneficiou o social-liberal Emmanuel Macron, fundador do movimento centrista En Marche! (Em Movimento!). Já Mélenchon captou os identificados como esquerda antissistema.

Feriado. Três dos quatro principais candidatos ao Palácio do Eliseu realizaram comícios ontem, aproveitando o feriado na França. A maior demonstração de força foi dada por Emmanuel Macron, que lotou o ginásio de Bercy, em Paris, com mais de 20 mil militantes. Ele pregou uma França “aberta, confiante e conquistadora” e exortou o eleitorado a renovar a política permitindo a “ascensão de uma nova geração” ao comando do país. Marine Le Pen realizou um evento na sala de espetáculos Zénith, na capital, e voltou a defender a suspensão da imigração. Diante de 5 mil pessoas em Nice, François Fillon, do Republicanos, pregou “segurança” e garantiu que “recolocará ordem” na França. 

 

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