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EFE/Andy Rain

Eleições antecipadas não reverterão Brexit

Votação, porém, pode ajudar premiê a acalmar os conservadores e adotar uma linha mais conciliatória nas negociações

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Michael Birnbaum / THE WASHINGTON POST

19 Abril 2017 | 05h00

A decisão surpreendente da primeira-ministra britânica, Theresa May, de realizar eleição antecipada em junho provavelmente não destruirá seus esforços para liderar a saída do Reino Unido da União Europeia, mas poderá aliviar a pressão sobre ela durante as tortuosas negociações do Brexit nos próximos dois anos. 

Como os partidos de oposição estão caóticos, May escolheu um bom momento para ganhar seu mandato de negociação do povo britânico. Ela poderá aplicar um poderoso golpe no Partido Trabalhista, que está rachado por divisões internas sobre o Brexit. E poderá silenciar dissidentes no próprio partido sobre quaisquer concessões que fizer a líderes da UE, à medida que eles se embrenharem em seu acordo de divórcio. 

O mais importante talvez é que ela poderá adiar a próxima rodada de eleições até 2022, dando mais folga para ambos os lados para completarem as negociações do Brexit antes de o Reino Unido sair da União Europeia, em 2019. Se ela não tivesse convocado novas eleições, teria de enfrentar os eleitores em 2020, no mais tardar, aumentando as pressões de ano eleitoral sobre um acordo que certamente será doloroso para ambos os lados. Mas, se ela acha que um mandato interno mais forte derrubará portas em Bruxelas e forçará os líderes europeus a fazer concessões, provavelmente está enganada.

 

Acima de tudo, a eleição adicionará mais incerteza a uma Europa conturbada que já está enfrentando a possibilidade de um líder contrário à UE vencer a disputa presidencial francesa e a chanceler alemã, Angela Merkel, ser destituída em setembro. “Imagino que tínhamos muita estabilidade política na Europa”, escreveu o diretor do centro de análises Carnegie Europe, Tomas Valasek, no Twitter. 

As próprias linhas vermelhas visíveis de May - incluindo fortes barreiras contra uma nova movimentação de trabalhadores da UE para a Grã-Bretanha e nenhum papel para o Tribunal de Justiça da UE na fiscalização do acordo do Brexit - aumentam a probabilidade de que líderes europeus adotem uma posição dura contra ela, seja qual for a opinião do povo britânico. 

O governo grego cometeu um erro de cálculo ao usar eleições como tática de negociação, em 2015, quando realizou um referendo sobre se devia aceitar os termos de um doloroso acordo de resgate. Os eleitores gregos rejeitaram o acordo, mas os líderes europeus não arredaram pé. Por enquanto, os dirigentes da UE adotaram uma linha dura e unificada sobre o Brexit, dizendo que oferecerão poucas concessões sobre o acesso ao mercado sem fronteiras da Europa sem direitos para os próprios cidadãos e empresas dentro do Reino Unido. 

Eles não devem nada aos eleitores britânicos. Apesar das chances pequenas de eleições antecipadas reverterem o ímpeto do Brexit, adversários do divórcio estão agarrando isso como sua última e melhor oportunidade de virar a maré. Para os liberal-democratas britânicos, que governaram com os conservadores de May até 2015, as pessoas que acreditavam que o Reino Unido deveria permanecer fortemente ligado à União Europeia agora teriam uma chance. 

“Se você quiser evitar um Brexit duro e desastroso, se quiser manter o Reino Unido no mercado único, manter um Reino Unido aberto, tolerante e unido, esta é a sua chance”, disse o líder liberal-democrata Tim Farron. Mas, numa medida da improbabilidade da mudança da dinâmica básica do Brexit, os liberal-democratas só estão alcançando cerca de 10% da preferência dos leitores nas últimas sondagens, em comparação com mais de 40% dos conservadores. E o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, nem sequer mencionou o Brexit em sua resposta inicial à convocação da eleição antecipada, um sinal de que ele não pretende manter o foco na questão central da vida política britânica em sua aposta para conquistar assentos. 

Agora, em vez disso, a questão maior será, mais provavelmente, se uma maioria reforçada dos conservadores fortalecerá os parlamentares de linha dura que querem um Brexit duro, ou se May conseguirá acalmá-los e buscar uma linha mais conciliatória. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

 

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