Eleito na Argentina deve resolver impasse com fundos ‘abutres’ dos EUA

Com a Argentina se preparando para eleger seu novo presidente, há um certo otimismo de que a disputa com os fundos hedge americanos seja solucionada. No domingo, os argentinos irão às urnas para votar naquele que sucederá a presidente Cristina Kirchner. O candidato favorito, Daniel Scioli, às vezes, compartilha do gosto da presidente pela retórica populista.

Jonathan Gilbert* / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2015 | 03h00

Entretanto, se eleito presidente, deverá discretamente buscar um compromisso com os fundos hedge envolvendo quase US$ 100 bilhões de títulos que a Argentina deixou de resgatar em 2001. “É muito importante encerrar o problema com aqueles que recusaram um acordo”, disse Gustavo Marangoni, assessor econômico de Scioli. “É como uma pedra bloqueando um canal de investimento.”

O impasse tem mantido o país fora dos mercados de empréstimo globais. Cristina manobrou para chegar ao fim da sua presidência sem precisar retornar a esses mercados, mas o novo dirigente necessitará desse acesso para reativar a economia. “Quem quiser governar a Argentina precisa de um país com acesso aos mercados de capital”, afirmou Federico Thomsen, economista de Buenos Aires.

Isto significaria por fim à contenda com os fundos hedge, chamados de “abutres” pelo governo Kirchner. O impasse remonta a 2012, quando o juiz Thomas Griesa, do Tribunal Federal do Distrito de Manhattan, decidiu que a Argentina não poderia pagar o serviço da dívida reestruturada nos anos posteriores ao seu calote de 2001 se não reembolsasse os credores que se recusaram a um acordo.

A Argentina rejeitou a decisão e foi criticada pelo juiz Griesa. Mesmo contestando o julgamento, o país emitiu títulos em dólar este ano com base numa lei local, mas teve de pagar altas taxas de juros, de 8% a 9%. Isto irritou os fundos que não aceitaram o acordo. Eles afirmam que a nova dívida foi comercializada internacionalmente e, portanto, estava sujeita à decisão do juiz Griesa.

Cristina liderou uma cruzada contra os fundos hedge, acusando-os de extorquir seu governo. Pesquisas sugerem que Scioli pode vencer as eleições sem necessidade de um segundo turno. O rival mais próximo é Mauricio Macri, empresário ex-presidente do Boca Juniors, que é visto com olhos mais favoráveis pelos investidores. Macri disse que negociará com os fundos.

Suas declarações, porém, parecem servir apenas para criticar o governo. Em entrevistas, seus assessores afirmam que deixarão o assunto definhar e procurarão endireitar a economia solucionando outros problemas. “Não acho que seja uma questão de vida ou morte para a Argentina”, disse um assessor.

Durante a campanha, Scioli, com apoio de Cristina, se mostrou quase tão agressivo quanto a presidente. Ex-piloto de lanchas de corrida, ele s indicou que não pretende melhorar as condições aprovadas por uma maioria de detentores de títulos nas swaps de dívida, em 2005 e 2010. Eles tiveram um “corte” de 65%, com alguns acordos atrelados à taxa de crescimento da Argentina. Oferta que os fundos hedge já rejeitaram.

Gustavo Marangoni e Mario Blejer, assessores de Scioli, dizem que seu governo retomaria as conversações que há muito tempo estão num impasse. “Defendo a abertura de negociações com uma posição bastante firme”, disse Blejer. Um terceiro assessor, Miguel Bein, disse que a Argentina poderá pagar até 70% dos cerca de US$ 1,7 bilhão devidos aos fundos, soma que inclui os juros. O que poderá não ser suficiente para satisfazer os credores que exigem a totalidade da dívida.

Scioli deverá realizar outras mudanças na política econômica, como reduzir a monetização do déficit fiscal para acalmar a inflação, estimada em mais de 25%, e uma desvalorização gradativa do peso, o que poderá atrair investimento estrangeiro e aumentar a competitividade.

“Tudo isto exigirá acesso aos mercados de títulos globais para trazer dólares para o país”, disse Jimena Blanco, que monitora o mercado argentino para a Verisk Maplecroft, de Londres.

A curto prazo, o país também necessitará de dólares para aumentar as reservas do Banco Central, que estão abaixo de US$ 30 bilhões. Embora muitos economistas concordem que a Argentina deva encerrar a disputa com os fundos, alguns acham que o país pode discutir o assunto. O outro candidato à presidência, Sergio Massa, advogado que se desligou do partido de Kirchner em 2013, apoia este enfoque.

Massa disse que fortalecerá sua posição negociadora voltando aos mercados de dívida e utilizando instrumentos para atenuar os riscos oferecidos pelos bancos de desenvolvimento regionais para emitir títulos. “Mesmo que o governo chegue a um acordo nos próximos meses, poderá ainda assim ter dificuldade para levantar recursos se não fizer algumas correções na economia”, afirma Siobhan Morden, diretora da Jefferies, em Nova York. A economista citou o déficit fiscal da Argentina, calculado em cerca de 7% do PIB, e a precariedade das reservas do BC. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* JONATHAN GILBERT É CORRESPONDENTE DO ‘NEW YORK TIMES’ EM BUENOS AIRES

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