REUTERS/Jacky Naegelen
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Em 10 anos, número de moradores de rua cresceu 50% em Paris

Presidente francês promete construir 40 mil moradias por ano para amenizar problema dos sem-teto no país

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2017 | 05h00

Mais do que as favelas na Europa, é o número de moradores de rua o indício mais visível dos anos de crise econômica. Em Paris, o total de pessoas sem domicílio fixo (SDF, na sigla em francês) cresceu 50% em dez anos, segundo relatório da Fundação Abbé Pierre.

A situação se agrava em noites de frio, como as do início do inverno, que reduziram a temperatura a próximo de zero na capital francesa, até mesmo com neve. Nesses dias, a procura por refeitórios comunitários e abrigos públicos cresce, revelando a superlotação e a incapacidade de atender a todos. 

Segundo a ONG, o número de pessoas que enfrenta a crise habitacional continua aumentando, mesmo em um momento de retomada econômica da União Europeia. “Perto de 4 milhões de pessoas estão mal alojadas e mais de 12 milhões estão em situação de fragilidade”, diz o relatório da entidade.

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De acordo com os critérios das ONGs parisienses, mal alojadas são pessoas que vivem sem casa. Em situação de fragilidade estão os locatários que vivem em atraso de pagamento ou proprietários em imóveis em situação de insalubridade. 

Expansão. Para enfrentar o problema, a fundação defende que o governo de Emmanuel Macron invista na construção de pelo menos 150 mil prédios de “habitação de aluguel moderado” – o sistema HLM, na sigla em francês. Essa solução foi empregada nos anos 60, quando espanhóis, portugueses e argelinos, instalados em Paris, somavam a maioria das 45 mil pessoas que viviam em favelas à época. 

“Sementes foram plantadas e avanços obtidos em matéria habitacional, mas ainda não são suficientes para enfrentar a amplitude do problema do mal alojamento”, afirma a fundação. 

Consciente do problema, a prefeitura de Paris anunciou a abertura de um novo centro de acolhimento de moradores de rua. A unidade será exclusiva para mulheres, a população que mais cresce entre os sem-teto – hoje, 20% do total. Depois de anunciar a disposição de retirar todos os imigrantes das ruas na França, Macron informou as linhas gerais de seu plano para criar 50 mil vagas em alojamento e prometeu a construção de 40 mil moradias por ano. 

Preço do m². Uma das explicações para o retorno das sub-habitações na Europa é a explosão do mercado imobiliário. Depois de estagnar ao longo da crise econômica, o preço do metro quadrado voltou a subir. Em Paris, os imóveis devem valorizar 10% até o fim do ano, levando o metro quadrado a superar a barreira histórica de € 9 mil – o que amplia a desigualdade e dificulta o acesso a moradias.

Na região de Odéon, no central 6.º distrito da capital, o metro quadrado chega a ser negociado por € 14,1 mil. No 3.º distrito, no “Alto Marais”, um dos bairros que atravessa o mais intenso processo de gentrificação na capital, o aumento do preço do metro quadrado chegou a 14,8% no terceiro trimestre. 

O resultado prático da inflação do preço dos imóveis é o aumento da desigualdade social. Quem tem um apartamento ou casa vê seu patrimônio se valorizar. Quem não tem, vê essa perspectiva cada vez mais distante. A situação se tornou mais complexa após a Justiça anular a regulamentação do preço dos aluguéis, adotada pelo governo do socialista François Hollande para conter o custo de vida. 

A lei limitava o reajuste dos aluguéis no momento da renovação do contrato, mas foi declarada inconstitucional. O governo de Emmanuel Macron pretende recorrer da decisão e promete um “choque de oferta” no mercado, estimulando a construção de novos prédios. 

Enquanto as medidas não surtem efeito, a população sente na pele a pressão inflacionária. O salário médio do francês, de € 2,2 mil, não é suficiente para pagar o aluguel de um apartamento de dois quartos em Paris. Com isso, a capital enfrenta cada vez mais a evasão de pessoas de baixa renda ou a divisão de um mesmo apartamento por vários moradores. 

Outra consequência é a mudança de comportamento social: cada vez mais jovens permanecem na casa dos pais. Segundo o Instituto de Urbanismo da Região Ile-de-France, 150 mil jovens, entre 25 e 30 anos, ainda não saíram de casa. Em 1973, 20% dos jovens eram proprietários de imóveis. Hoje, eles são apenas 12%. 

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