REUTERS/Carlos Barria
REUTERS/Carlos Barria

Em 2 semanas, Trump abala modelo que os EUA moldaram por 70 anos

Atos do novo presidente americano põem em xeque instituições e ideias que Washington lutou para criar no mundo; republicano parte da premissa errada de que o país teria sido apenas prejudicado pelo multilateralismo e pelo livre-mercado

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2017 | 17h00

WASHINGTON - A visão ultranacionalista e protecionista de Donald Trump, traduzida no lema “América em Primeiro Lugar”, ameaça a ordem liberal criada sob liderança dos EUA depois da 2.ª Guerra, que garantiu a hegemonia mundial americana, promoveu a globalização e evitou um novo conflito em escala global nos últimos 70 anos.

Durante a campanha e desde que assumiu a Casa Branca, há pouco mais de duas semanas, Trump atacou todos os pilares dessa arquitetura e hostilizou as alianças e instituições multilaterais que a sustentam. Sua defesa do protecionismo contraria os princípios de abertura de mercados e liberalização comercial que orientaram a atuação dos EUA nas últimas décadas, com enorme benefício para suas empresas, que demandaram acesso a mercados e segurança jurídica ao redor do mundo.

Trump questionou alianças cruciais para a estabilidade global, retirou os EUA da Parceria Transpacífico (TPP) e ameaça abandonar o Acordo de Paris sobre mudança climática assinado por quase 200 países. 

A retórica de Trump também fragilizou o discurso de defesa da democracia, promoção de direitos humanos e respeito a liberdades individuais adotado pelos americanos na arena global – ainda que ele nem sempre se reflita na atuação do país ou na escolha de seu aliados.

O novo ocupante da Casa Branca defende a prática da tortura, ameaça a imprensa e parece ignorar preocupações relativas aos direitos humanos. Seu veto à entrada nos EUA de cidadãos de sete países de maioria muçulmana foi criticado como uma ameaça à liberdade religiosa, um valor que está na origem da identidade americana.

Mais do que qualquer outra instituição, a União Europeia (UE) é a maior vítima potencial do nacionalismo de Trump. O presidente americano é um crítico declarado do bloco e um entusiasta do Brexit e de líderes políticos populistas contrários à integração regional. 

Durante a campanha, Trump criticou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e colocou em dúvida o compromisso dos EUA com a defesa dos aliados diante de eventuais agressões da Rússia.

A hostilidade de Trump chocou líderes europeus, que tentam definir uma resposta à potencial transformação da arquitetura mundial que o líder de Washington ameaça promover. Em carta enviada na terça-feira aos dirigentes dos 27 países que integram a UE, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, incluiu a nova administração americana entre as ameaças geopolíticas enfrentadas pelo bloco – ao lado da China, da Rússia e do terrorismo. 

Professor da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, Hal Brands acredita que Trump parte da premissa equivocada de que os americanos não se beneficiaram da ordem liberal internacional.

“Os EUA investiram na construção dessa arquitetura e dessas instituições depois da 2.ª Guerra porque concluíram que o país seria mais seguro e mais próspero em um amplo sistema internacional”, afirma Brands. “Desde 1945, os EUA não tiveram de lutar uma grande guerra entre potências, e haviam lutado duas delas nos 30 anos anteriores. E o país experimentou uma enorme prosperidade em razão da globalização e do livre-comércio."

Segundo ele, a criação da União Europeia é um elemento fundamental dessa ordem liberal e garantiu estabilidade em um continente antes marcado por conflitos. “É difícil colocar isso em perspectiva, mas os últimos 70 anos foram uma era dourada das relações internacionais. Não houve uma grande guerra, houve uma grande prosperidade econômica e a democracia e o respeito aos direitos humanos se expandiram como nunca”, diz. “Se houver retrocesso nessa ordem liberal, essas conquistas também estarão ameaçadas.”

Brands observa que ainda é cedo para avaliar a extensão do dano que Trump infligirá a essa arquitetura. No fim da semana, o secretário de Defesa, James Mattis, visitou o Japão e a Coreia do Sul, os dois principais aliados dos EUA na Ásia. E algumas das decisões adotadas pela nova administração estão em linha com princípios tradicionais da política externa americana.

Apesar da simpatia de Trump em relação a Vladimir Putin, a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, condenou a ação de Moscou na Ucrânia e reiterou o apoio americano às sanções impostas ao país em 2014.

Visões opostas

Segurança - Depois da 2ª Guerra, os EUA lideraram a construção de instituições multilaterais e de uma arquitetura de alianças que durante 70 anos evitaram um novo conflito mundial e garantiram a hegemonia americana. Entre elas, estão a ONU, a Otan e os tratados de segurança com Japão e Coreia do Sul.

Isolacionismo - Trump voltou-se contra essa ordem liberal e adotou uma visão ultranacionalista e isolacionista, com o argumento de que os EUA são explorados pelo restante do mundo. Na campanha, ele questionou a utilidade da Otan e colocou em dúvida compromissos com aliados. Eleito, ele anunciou corte de recursos para a ONU.

Globalização - Na área econômica, a ordem pós-2ª Guerra tem como base a ideia de abertura comercial e defesa de regras estáveis para investimentos, o que beneficiou empresas americanas e deu impulso à globalização. Essa visão valoriza a integração econômica e tratados como o Nafta e a Parceria Transpacífico (TPP).

Protecionismo - Trump defende o protecionismo, a imposição de barreiras tarifárias e o tratamento favorável a empresas americanas dentro do país. O presidente abandonou o TPP, ameaçou deixar o Nafta, cujos parceiros são Canadá e México, se o acordo não for renegociado, e disse que dará prioridade a tratados bilaterais.

Democracia - Apesar de nem sempre agirem de acordo com esses princípios, os Estados Unidos promovem a democracia, os direitos humanos, a liberdade de imprensa, a liberdade religiosa e o respeito a minorias ao redor do mundo e costumam se apresentar como os líderes do “mundo livre”.

Restrições - Trump defendeu a prática da tortura, disse que está “em guerra” com a imprensa, referiu-se a jornalistas como as pessoas “mais desonestas” do mundo e adotou restrições à entrada de muçulmanos nos EUA, medida vista por muitos como um ataque à <QA0>liberdade religiosa.

 

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