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Em Bagdá, os ecos de 2003

Exército iraquiano pode enfrentar a insurgência, desde que governo divida o poder

NICHOLAS D. KRISTOF

THE NEW YORK TIMES

Estamos em 2014 ou em 2003? Sinto um doloroso déjà vu ao ouvir os pedidos por uma intervenção militar no Iraque, agora que o próprio presidente Obama - provocado por críticos que o acusam de ser fraco - estaria pensando em autorizar ataques com drones.

A invasão americana do Iraque em 2003 deveria servir como alerta, ao mostrar que a força militar às vezes transforma um problema real em algo pior. A guerra custou a vida de 4.500 americanos e, de acordo com um estudo de mortalidade publicado numa revista acadêmica dos EUA, provocou a morte de 500 mil iraquianos. Linda Bilmes, especialista em finanças públicas de Harvard, diz que a Guerra do Iraque custará US$ 4 trilhões aos EUA.

Trata-se do equivalente a US$ 35 mil para cada lar americano médio. O suficiente para garantir que todas as crianças frequentassem a pré-escola nos EUA, que a maioria das pessoas com aids no mundo recebesse tratamento e cada criança pudesse ir à escola - pelos próximos 83 anos.

Uma das lições mais elementares das relações internacionais é também uma das mais frustrantes: há mais problemas do que soluções. Assim como fazem os médicos, os governos deveriam "antes de mais nada, não provocar nenhum mal". Paul Bremer, ex-enviado americano ao Iraque, defende uma campanha com ataques aéreos e, possivelmente, com soldados em território iraquiano. Da mesma maneira, o editorial do Wall Street Journal mostrou-se favorável a uma intervenção militar.

Talvez mais surpreendente seja o fato de a senadora democrata Dianne Feinstein, da Califórnia, presidente da Comissão de Espionagem do Senado, concordar com essa estratégia. "O mais importante no momento é uma ação direta contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, na sigla em inglês)", disse, de acordo com o jornal The Hill, de Washington, referindo-se ao grupo militante sunita que tomou o norte do Iraque.

O menos surpreendente dos falcões é Dick Cheney, que, num artigo publicado com a filha, Liz, no Wall Street Journal, mantém intacto seu histórico quase impecável de equívocos. Do vice-presidente que obteve cada dispensa possível para evitar o Vietnã, que afirmou "com certeza absoluta" em 2002 que Saddam estava fabricando armas nucleares e insistiu em 2005 que a insurgência no Iraque estava em seus "estertores finais", temos agora uma crítica a Obama por não ter extinguido os grupos que ele considerava moribundos.

O Iraque solicitou formalmente a intervenção militar americana e temo que os EUA serão arrastados inadvertidamente para uma guerra civil - um eco do que ocorreu com os americanos no Líbano de 1982 a 1984 ou na Somália de 1992 a 1994. Nesse caso, não intervir é uma opção ruim. Mas uma intervenção seria ainda pior. Suponhamos que os falcões tenham razão, que o Iraque represente um problema grave. Será que uma intervenção militar dos EUA é a melhor resposta? Não.

Devemos lembrar que a invasão foi feita pelos militantes com uma pequena força com aproximadamente 4 mil combatentes, sendo que o Iraque possui um exército 50 vezes maior do que isso. O governo iraquiano de maioria xiita do primeiro-ministro Nuri al-Maliki é capaz de derrotar os militantes, mas o primeiro passo essencial é uma abertura de Maliki (ou de um substituto) para trabalhar com sunitas e curdos, em vez de marginalizá-los.

No New York Times, Alissa J. Rubin e Rod Nordland escreveram essa semana que líderes árabes sunitas e curdos tinham se reunido com Maliki e os sunitas teriam proposto a criação de um Exército sunita para acabar com os militantes. Esta seria uma maneira perfeita de fomentar a união e mobilizar os sunitas moderados para esmagar os sunitas militantes, reduzindo as tensões sectárias. Maliki recusou a ideia.

No Iraque, muitos sunitas rejeitam os militantes, mas aprenderam a desprezar e desconfiar de Maliki ainda mais. A saída requer que o governo partilhe o poder com sunitas e curdos, aceite a descentralização e conceda poder às tribos sunitas moderadas.

Se tudo isso ocorrer, talvez se torne razoável que os EUA apoiem um governo iraquiano unido, autorizando ataques aéreos contra combatentes militantes. Caso contrário, os americanos seriam apenas cúmplices da intransigência de Maliki, defendendo um dos lados numa guerra civil. Como disse o general David Petraeus numa conferência em Londres, "não podemos deixar que os EUA se tornem a Força Aérea das milícias xiitas".

Infelizmente, parece que Maliki não está disposto a ceder, optando por fortalecer sua base xiita em vez de construir uma frente comum. O governo iraquiano deveria libertar prisioneiros sunitas como gesto de boa vontade. Em vez disso, presos foram executados pela polícia.

A força militar pode ser uma ferramenta poderosa e indispensável, como vimos em Kosovo e na zona de exclusão aérea sobre o Curdistão. Mas a lição de US$ 4 trilhões ensinada pela Guerra do Iraque diz que, por mais impressionantes e até entorpecentes que seja a capacidade militar dos EUA, elas não podem ser a solução para todos os problemas. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

NICHOLAS D. KRISTOF, DO THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA