REUTERS/Thomas Peter
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Em busca de apoio chinês contra Kim, Trump recua em exigências comerciais

Durante visita, presidente elogia líderes de Pequim e diz que culpa por déficit na balança comercial entre os dois países é de governos americanos anteriores

O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2017 | 05h00

PEQUIM - Em uma viagem que tem como principal objetivo conter a ameaça do regime norte-coreano, o presidente dos EUA, Donald Trump, recuou em suas exigências comerciais em relação à China, principal aliado regional do ditador Kim Jong-un. Em uma reviravolta em seu discurso da campanha, Trump culpou governos americanos anteriores pelo déficit comercial entre os dois países. 

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No mês passado, os EUA foram responsáveis por 70% do superávit comercial global da China. Trump afirmou não poder culpar os chineses pela “fraca política comercial americana”. “Não critico em nada a China. Depois de tudo, quem pode censurar um país que se aproveita de outro pelo bem de seus cidadãos?”, afirmou o republicano, que, quando candidato, fez dos superávits comerciais chineses seu bode expiatório. Em Pequim, Trump disse que o presidente chinês, Xi Jinping, é o líder capaz de “desarmar” Pyongyang.

Um sorridente Trump abandonou o discurso eleitoral, segundo o qual Pequim “arrasava” com a economia americana com práticas desleais e voltará para casa com acordos fechados de mais de US$ 250 bilhões. 

Segundo o jornal The New York Times, a performance de Trump sugere um ponto de inflexão na política entre as grandes potências. “Ao concluir que os EUA podem atingir melhor seus objetivos elogiando um líder chinês em vez de desafiá-lo, Trump aparentemente sinaliza para uma reversão de papéis: os EUA talvez agora precisem mais da ajuda da China do que o contrário”, diz o jornal. 

Nos bastidores, membros do governo americano disseram que Trump, na verdade, “confrontou” Xi pelo desequilíbrio nas relações comerciais entre os dois países. O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, afirmou a repórteres que o encontro entre os dois a portas fechadas teve pontos de tensão, mas o americano usou elogios para pedir a Xi que faça mais para isolar Kim. 

Tillerson reduziu a importância da declaração de Trump de que os próprios americanos são responsáveis pelo déficit comercial com a China dizendo que a fala foi “algo pequeno” em meio a uma grande discussão.

Segundo o Times, os acordos de US$ 250 bilhões foram vistos como um “gesto de boa vontade” dos chineses. Muitas dessas negociações são preliminares e levarão anos para render algum resultado. “Elas não avançaram em áreas novas, como tecnologia, onde os EUA estão perdendo acesso a mercado”, detalhou o jornal. Os pactos englobam os setores energético, aeronáutico, agroalimentar e eletrônico e terão entre os grandes beneficiários os gigantes Boeing, DowDuPont, Caterpillar e Qualcomm. 

Mas, segundo observadores, essa onda de acordos reequilibrará a balança comercial americana apenas marginalmente e não ajudará a reduzir o protecionismo da China tão criticado por Washington. Os EUA são o segundo maior parceiro comercial da China e têm um déficit da balança anual de cerca de US$ 350 bilhões – de longe o maior saldo negativo entre os parceiros comerciais do país. 

Assim como na visita do ex-presidente Barack Obama a Pequim, em 2009, quando ele se encontrou com Hu Jintao, autoridades chinesas não permitiram que a imprensa fizesse perguntas após as declarações dos presidentes. / THE NEW YORK TIMES, AFP e AP

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