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Em carta, físico da UFRJ nega laço com terrorismo

Professor, que cumpriu pena na França por ligação com a rede Al-Qaeda, afirma que processo não reunia provas suficientes

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Fábio Grellet,
O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2016 | 06h24

RIO - Condenado na França a 5 anos de prisão sob a acusação de planejar atentados terroristas, o físico Adlène Hicheur, de 39 anos, nascido na Argélia e naturalizado francês, radicado no Brasil há três anos, divulgou nesta segunda-feira, 11, texto em que diz que o processo judicial não reuniu provas contra ele, apesar da sentença.

Ao obter liberdade provisória, após dois anos, ele se mudou para o Rio, onde leciona no Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) como professor visitante. O caso foi revelado na sexta-feira pela revista Época.

“Fui preso pela polícia francesa no fim de 2009 e a única justificativa de minha detenção foram minhas visitas aos chamados websites islâmicos subversivos. Fui privado da minha liberdade por dois anos apenas com base nisso. Nenhum outro elemento foi apresentado contra mim”, afirma ele na carta, encaminhada ao Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

No documento, Hicheur diz que “a acusação não sustentou o caso com fatos e evidências”. “O caso foi fabricado, usando-se partes pinçadas de uma conversa virtual com o objetivo de mostrar que haveria uma tentação de considerar a violência como solução para conflitos internacionais em países árabes e muçulmanos como Iraque ou Afeganistão”. O Estado procurou Hicheur nesta segunda-feira na UFRJ, mas ele não estava em seu gabinete.

O pesquisador Ignacio Bediaga, que trabalha no CBPF e foi responsável pelo convite ao físico para que viesse trabalhar no Brasil, também divulgou carta em que defende e elogia o colega. “Durante esses quase dois anos de trabalho conjunto, o dr. Hicheur, além de realizar um trabalho excepcional, mostrou um comportamento moral e ético exemplar, bem como uma grande disponibilidade de colaborar com o grupo”, escreveu.

Especializado em partículas elementares, Hicheur desenvolvia até 2009 uma carreira acadêmica reconhecida internacionalmente. Fazia pós-doutorado na Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, e trabalhava no Centro Europeu para Física de Partículas. Foi quando se afastou para tratamento médico devido a problemas de coluna.

Na casa dos pais, na França, começou a frequentar fórum na internet que reúne jihadistas e trocou mensagens com um interlocutor que se identificava como “Phenix Shadow” – segundo a polícia, era Mustapha Debchi, apontado pelo governo da França como integrante da organização terrorista Al-Qaeda.

As mensagens foram interceptadas pela polícia francesa, que prendeu o físico. Processado, foi condenado a 5 anos de prisão. Detido em 2009, foi libertado em 2012. No início de 2013 foi convidado pelo CBPF, unidade de pesquisa do Ministério da Educação, para participar de um projeto no Brasil. Durante três meses, com bolsa de estudos do CBPF, fez pesquisas e produziu relatório. Voltou para a Europa, mas a polícia suíça o proibiu de entrar no país até 2018.

Hicheur foi, então, convidado a estender a pesquisa no Brasil, auxiliado por bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ele teve o currículo aprovado por comissão do Ministério da Educação e do CNPq. Recebeu ajuda mensal de setembro de 2013 a abril de 2015. Desde julho de 2014 é contratado da UFRJ.

Após um episódio em 2014 na mesquita que frequenta em Vila Isabel, Rio, o físico virou alvo de investigação da PF, que fez operação de busca em sua casa e em seu gabinete na UFRJ. A investigação foi arquivada. O CNPq informou que, para conceder a bolsa, analisou o currículo acadêmico e o mérito do projeto do qual o físico participaria – a condenação não foi levada em conta. A UFRJ disse que não havia impedimento legal à contratação.

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