Fernanda Simas / Estadão
Fernanda Simas / Estadão

Em Hebron, tensão é ainda maior

Cidade na Cisjordânia com 750 mil palestinos e 22 mil israelenses reflete obstáculos para paz

Fernanda Simas, Enviada Especial / Hebron, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2017 | 05h30

HEBRON, CISJORDÂNIA - “A entrada para cidadãos israelenses é proibida, perigosa para sua vida e contra a lei de Israel”. A placa vermelha com os dizeres em árabe, hebraico e inglês está presente na entrada das cidades da Cisjordânia controladas totalmente pela Autoridade Palestina (AP). Sem nenhuma identificação oficial do governo israelense, a sinalização é vista por moradores desses municípios como uma forma de afastar turistas. Mas para israelenses, é uma maneira de alertar e evitar novos conflitos ou violência entre os dois lados.

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Na entrada de Hebron - a maior cidade da Cisjordânia e com importância religiosa para muçulmanos e judeus -, há uma dessas placas. Perguntar a crianças palestinas vivendo ali sobre israelenses significa obter a resposta “são os que vivem em cima”, se referindo às colônias judaicas que existem na cidade, ou “são os soldados”. Com as restrições de movimentação entre Israel e Cisjordânia, muitos palestinos nunca foram a Tel-Aviv e muitos israelenses têm apenas uma ideia do que sejam as áreas governadas pela AP.

A existência de assentamentos judaicos na Cisjordânia é considerada por atores internos e externos, incluindo a ONU, como um entrave à paz. “Somos contra a construção de novas colônias, queremos que aqueles que vivem em colônias isoladas sejam retirados e nos casos de colônias muito grandes é preciso haver uma troca de territórios”, afirma a deputada israelense Michal Biran, do Partido Trabalhista, ressaltando, no entanto, que as autoridades palestinas devem “parar de incitar o ódio” e contribuir com o diálogo para que haja um acordo de paz.

O porta-voz da chancelaria israelense Emanuel Machon afirma que os assentamentos não são um obstáculo para a paz e cita a retirada de israelenses da Faixa de Gaza após um acordo como exemplo de que a saída por si só dos judeus não resolveria a situação.

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Oitocentos israelenses vivem na cidade antiga de Hebron em um assentamento cercado por altos muros, cercas e com segurança 24 horas. As construções são mais novas e destoam do resto da cidade. Em todo o território de Hebron vivem 22 mil israelenses e 750 mil palestinos.

Construções. O mercado de rua da cidade lembra o de Tel-Aviv, com roupas e especiarias expostas, vendedores chamando a atenção dos visitantes e muito movimento. Na rua paralela, a cena é bem diferente. Existe uma interrupção na passagem com blocos de concreto e cercas de arame farpado. “Parte do nosso mercado foi bloqueada pelos assentamentos”, diz o vendedor de lenços palestino Ayman, de 25 anos.

O assentamento israelense fica em um nível superior ao das casas e comércios palestinos. Redes foram colocadas para separar os dois níveis porque palestinos denunciavam que israelenses atiravam pedras e objetos para baixo. Hoje, pelas ruas, eles sustentam que a nova tática de intimidação é atirar ácido. 

“Você vê a diferença de estar ocupando ou vivendo em um lugar se precisa de segurança. Se estiver na sua terra, não precisa de segurança”, argumenta o guia palestino Hassan.

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Para o escritor israelense Abraham Yeoshúa - que defendeu por 50 anos a solução do conflito árabe-israelense por meio da criação de dois Estados e hoje acredita na criação de um Estado binacional - a opção seria dar a cidadania israelense aos palestinos residentes na cidade. “Há uma situação de apartheid ali e a opção de retirar os colonos é impossível. Além disso, alguns palestinos não reconhecem o direito de israelenses viverem em Israel”.

“A paz pode existir, mas com esses assentamentos e soldados, não”, comenta o comerciante palestino Abjarafah Isa, de 49 anos, enquanto prepara uma comida típica da região com carne de cordeiro, tomate e temperos dentro de um pão sírio. Ele lembra que o comércio foi passado para ele por seu pai e seu avô e, questionado sobre o que pensa do Hamas, grupo radical islâmico que governa a Faixa de Gaza, diz apenas que “são pessoas comuns, seres humanos como outros”.

Para chegar às cidades da Cisjordânia é preciso conhecer um pouco a região e ter mapas porque muitas delas não aparecem nos serviços de GPS. A existência de contêineres em determinadas regiões indica a construção de novos assentamentos.

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