Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Em meio a tensão, haitianos assumem controle da segurança após 13 anos

Após saída de tropas da Minustah, acesso à principal favela de Porto Príncipe é dificultado por homens armados e subordinados ao ‘chefão’ local; dois policiais brasileiros continuarão no país para auxiliar a força local a se qualificar e modernizar

Luciana Garbin ENVIADA ESPECIAL / PORTO PRÍNCIPE, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2017 | 05h00

Após 13 anos em que as tropas da missão de paz da ONU coordenaram a segurança no país, o Haiti teve ontem seu primeiro dia com a polícia local no comando. A reportagem do Estado foi intimidada por homens armados ao voltar sem a companhia dos militares brasileiros a um setor de Cité Soleil, favela pacificada em 2007 após intensos confrontos.

A equipe foi abordada por um homem que se dizia chefe de Bel Alkou, uma área de Cité Soleil. Perto de um muro com a figura de Che Guevara descascada, um homem de chinelo, jeans e camisa, se aproximou para perguntar o que o grupo fazia ali. Depois, avisou que ninguém pode entrar na área sem autorização do chefe e que o avisaria para saber o que faria. 

Minutos depois, um homem acompanhado de mais sete jovens se apresentou como chefe e mandou o fotógrafo do Estado tirar a lente da câmera e a jornalista do Diário de Pernambuco tapar a máquina. Segundo o tradutor que acompanhava a reportagem, dois integrantes do grupo estavam com armas na cintura. 

Em crioulo, o tradutor explicou que a reportagem seria sobre bolachas de barro e já estava deixando o local. O chefe então mandou o grupo permanecer onde estava e a repórter do Estado, que estava mais distante, se aproximar. Em seguida, disse ao tradutor que ninguém pode circular ali sem ordem dele e que o grupo quisesse poderia entrar na favela, desde que com supervisão. 

Os jornalistas disseram que preferiam trabalhar em outro trecho. O chefe liberou a saída da reportagem, mas cerca de um quilômetro adiante, no local indicado, o tradutor disse que não seria possível ficar. Não havia segurança. O crescimento da violência depois da saída das tropas foi um temor relatado pela população do Haiti ao longo desta semana. Ontem, a Polícia Nacional Haitiana (PNH) e a polícia das Nações Unidas assumiram o controle da segurança no país.

Sentado numa cadeira desmontável na calçada, com um fuzil no colo e um celular na mão, um policial haitiano que pediu para ser identificado apenas como Pierre contou que a manhã havia sido tranquila em Vive Michele, um bairro de alto padrão de Porto Príncipe. 

Após levantar diante do chefe, que havia passado em um veículo policial, ele disse também que recebeu um “treinamento completo” para atuar, que está na polícia há três anos e, se o país tiver problemas de criminalidade, “dá pra controlar”.

Brasil que fica. Depois que a Minustah for oficialmente encerrada, em 15 de outubro, apenas dois policiais brasileiros que trabalham nas Nações Unidas devem permanecer no país. Um deles é o mineiro Paulo Filipe Moura, de 30 anos. Há 9 meses em Porto Príncipe, ele diz que a imagem que ficou do Haiti no Brasil é a do militar com fuzil e capacete, mas a missão de paz é mais ampla e dezenas de policiais brasileiros o antecederam.

Paulo chegou ao Haiti após passar dez anos na Polícia Militar de Minas e se submeter a testes de idioma, informática, tiro, armamento e direção, além de entrevistas e treinamentos. Seu mandato é de um ano, prorrogável por mais um. O trabalho da polícia das Nações Unidas é auxiliar na melhoria da polícia haitiana, ainda carente de técnica e doutrina, e transferir conhecimento aos policiais. Paulo trabalha na seção de operações conjuntas, responsável por planejar e executar operações pelo país. O outro brasileiro é Anderson Silva Santana, do Rio de Janeiro. 

A partir do mês que vem, o número de policiais estrangeiros no país cairá de 980 para 295. E os contingentes de FPUs serão reduzidos de 11 para 7. “Hoje o país está tranquilo. O problema é se surgir algum fator que abale essa estabilidade, como um desastre natural ou um processo eleitoral conturbado. Acho que vai aumentar o índice de criminalidade, mas num nível ainda tranquilo se comparado a outros países. Como policial, aqui no Haiti me sinto muito mais seguro que no Brasil.”

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