REUTERS/Jorge Silva
REUTERS/Jorge Silva

Em reduto chavista, fome vence ideologia

Maduro teve 70% dos votos na eleição de 2013 em Antímano, favela de Caracas; 4 anos depois, em meio a filas por comida, ninguém no bairro governista admite ter escolhido o afilhado de Chávez

Cristiano Dias, enviado especial / Caracas, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2017 | 05h00

CARACAS - Enquanto diplomatas debatem a crise venezuelana na sede da OEA, em Washington, e opositores trocam sopapos com a polícia, em Caracas, grande parcela da população está desaparecida das discussões. A arraia-miúda das favelas e bairros pobres do país ocupa a maior parte do tempo tentando resolver um problema familiar: a fome.

Esta semana, o Estado esteve em Antímano, favela de 160 mil habitantes e histórico reduto chavista, onde o presidente Nicolás Maduro obteve 70% dos votos na eleição presidencial de 2013, sua maior vitória proporcional. O local é ideal para entender como a fome tornou-se uma forma de controle social e um negócio que sustenta várias pequenas máfias na Venezuela.

Cerca de 70% dos venezuelanos desaprovam o governo de Maduro. Diante de tanta impopularidade, em Antímano, os votos do presidente desapareceram. “Eu era chavista, mas não votei em Maduro”, garantiu Manuel Gil, de 55 anos. 

Acácio Márquez, de 50 anos, ainda se anima a elaborar um trocadilho. “Na Venezuela, Maduro fez uma ‘robolución’”, afirmou. Desempregado, ele diz que está sem comer há mais de 24 horas. “A maioria das pessoas em Antímano passa fome como eu.”

María Contreras é outra que despreza Maduro. “A gente aqui em Antímano está comendo isso”, disse a mulher de 42 anos, apontando para restos de verduras em uma lata de lixo. “Volte aqui depois das 18 horas, por favor. Você vai ver as pessoas catando restos de açúcar na rua.”

Em qualquer ponto de Caracas, os famintos são fáceis de reconhecer. Abatidos, sussurram à meia voz alguma queixa contra o governo e não escondem uma certa vergonha pela indigência. Muitos vivem em casas de classe média em bairros modestos da capital e reviram o lixo porque o salário não cobre as despesas da família com alimentação.

Segundo pesquisa recente das universidades Central da Venezuela, Católica Andrés Bello e Simón Bolívar, meio quilo de macarrão custa cerca de 10% do salário mínimo e 93% dos venezuelanos não ganham o suficiente para comprar comida.

Para tentar desonerar o orçamento familiar, o governo chavista criou os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (Clap), que têm a missão de distribuir alimentos de primeira necessidade, como arroz, farinha e azeite, a preços acessíveis nas regiões mais pobres. 

Para ter acesso à comida subsidiada, o cidadão tem um registro, que funciona como um cartão de racionamento. O comando dos comitês, no entanto, foi confiado a organizações comunitárias que formam o núcleo duro do chavismo, como a União Nacional das Mulheres, a Frente de Batalha Bolívar-Chávez e as unidades de ação do Partido Socialista Unido Venezuelano (PSUV). Em última instância, são eles que decidem quem pode comprar comida. Quem for flagrado falando mal do governo, pode ter seu registro cassado. 

Na prática, o que acontece é que parte da comida frequentemente desaparece dos depósitos e reaparece nas mãos de contrabandistas. Nos locais mais miseráveis de Caracas, essas pequenas máfias são chefiadas pelos “coletivos”, grupos paramilitares ligados ao governo que vendem a comida roubada no mercado negro.

"Em Antímano, quem manda são os coletivos”, disse José António González, de 54 anos, que também aguarda na praça a chegada do caminhão de comida para conseguir meio quilo de farinha de milho. “Esses contrabandistas trabalham para o governo. Todo mundo sabe disso.”

Este cenário trágico explica por que a fome é uma questão difícil de resolver, não só pela escassez de produtos, mas também pelo negócio criado pelo mercado ilegal. É como se nas favelas de Caracas a comida tivesse um papel semelhante ao das drogas nos morros do Rio de Janeiro.

“Além de sustentar um comércio ilegal, a fome faz com que a população mais pobre passe a maior parte do tempo em filas para comprar comida”, afirmou o cientista político Nicmer Evans, dirigente do partido Marea Socialista. Isso ajuda a explicar, segundo ele, a ausência das classes mais miseráveis nas manifestações da oposição nas ruas de Caracas. “Quem tem como prioridade encontrar comida para a família não morrer de fome, não tem tempo de ir até a Assembleia Nacional protestar contra o governo.”

Outra face assustadora da fome na Venezuela se reflete nos hospitais. “Os venezuelanos estão comendo lixo, literalmente”, disse Judith León, presidente da Federação de Colégios de Bioanalistas da Venezuela. “Isso aumenta os problemas gastrointestinais.” 

O hábito característico de países onde há fome crônica mudou o perfil de algumas doenças. “Antes, víamos casos de diarreia em razão de alimentação inadequada. Agora, as causas são outras. As pessoas têm sido diagnosticadas com diarreia provocada por bactérias ou porque estão bebendo água que não é potável.”

De acordo com Judith, outro impacto visível é o aumento repentino de casos de desnutrição infantil. “Eu nunca vi tantas crianças com desnutrição. Neste momento, no hospital infantil de Caracas, há dois meninos internados com quadro grave de desnutrição.”

Depois de algumas horas de espera diante da igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Antímano, o caminhão com comida finalmente chega buzinando por volta do meio-dia. Debaixo de um sol escaldante, moradores correm por um lugar na fila. Alguns minutos depois, as portas se abrem e três brutamontes descarregam caixas de maionese e molho de tomate. 

A decepção é visível. Acácio Márquez, o trocadilhista que não come há mais de 24 horas, não esconde a irritação. “Maionese e molho de tomate? Por favor, me diga você o que eu vou fazer com isso?” Lentamente, começa a selecionar restos de mandioca no lixo de um supermercado para não ficar mais um dia sem comer. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Sistema de saúde é tão ruim que inibe filas

Falta de remédios e reagentes em laboratórios impede diagnóstico; sem ele, não há tratamento

Cristiano Dias, enviado especial / Caracas, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2017 | 05h00

CARACAS - Ele entrou no trem na estação Colegio de Ingenieros, Linha 1 do metrô de Caracas. Disse que se chamava Rafael, simplesmente. Que não tinha nada para vender, mas precisava de 7.400 bolívares (menos de R$ 10) para comprar uma caixa de amoxicilina. Sua orelha já estava pela metade, segundo ele, estraçalhada por uma bactéria que lhe atacava o estômago. Ganhou um trocado aqui, outro ali. Com o sangue lhe escorrendo pelo pescoço, ajoelhou-se e chorou. Pediu um milagre. Já de pé, levantou a camisa e mostrou a barriga em carne viva.

O drama de Rafael é reflexo do colapso do sistema de saúde venezuelano. O nível de indigência da maior parte da população aumenta a suspeita de que o governo do presidente Nicolás Maduro se mantenha amparado em algum milagre da Virgem de Coromoto, padroeira de Caracas. 

Na capital, médicos, dentistas e profissionais de saúde consultados pelo Estado relatam um cenário de terra arrasada, de incapacidade de tratar doenças mais simples. Em muitos casos, pacientes nem sequer sabem de que estão morrendo, pois não há mais reagentes e equipamentos laboratoriais para obter um diagnóstico confiável.

“Existem falhas funcionais graves nos hospitais do país”, diz Freddy Ceballos, presidente da Federação Farmacêutica Venezuelana. Segundo ele, em alguns lugares já se fala em 95% de escassez de remédios. “Não há mais insulina, anticonvulsivos e analgésicos. Desapareceu também a maioria dos antibióticos. Não há mais medicamentos para hipertensão, aids e câncer. A Venezuela vive uma crise humana.”

Nos últimos cinco anos, 16 mil profissionais de saúde foram embora, a maioria médicos especialistas, enfermeiros e farmacêuticos. Os que ficaram recorrem ao improviso para aliviar a dor dos pacientes. Ceballos conta que é comum receitar clara de ovo para queimadura, pois não há mais pomadas no mercado. 

Na falta de cabos de bisturi, segundo ele, muitas cirurgias estão sendo feitas só com as lâminas. Em alguns hospitais, a ordem é reutilizar sondas de drenagem e trocar a dose de determinados remédios por outros parecidos que possam ser encontrados nas farmácias. “Já escutei de colegas que usaram linha de costura para suturar paciente”, disse.

No Hospital das Clínicas de Caracas, pacientes com fraturas graves aguardam cirurgia na cama com a perna içada por uma faixa. Como não há equipamento adequado, os médicos usam como contrapeso galões de água para mantê-la esticada no leito. “É um método usado na 2.ª Guerra”, afirmou Ceballos.

Na falta de stents (tubos metálicos usados para liberar o fluxo sanguíneo), as angioplastias estão sendo desmarcadas e o paciente vem sendo tratado com estreptoquinase, medicamento usado contra trombose. “Está longe do ideal. Se o caso é grave, há risco grande de arritmia ou parada cardíaca”, afirma o farmacêutico. Quando o problema é mais simples, os médicos simplesmente não fazem nada. Em caso de aftas, herpes, intoxicações alimentares ou cólicas, a recomendação é mandar de volta para casa e esperar passar.

Os profissionais venezuelanos são unânimes em dizer que o fracasso do sistema de saúde do país há algum tempo extrapolou a questão do tratamento. Como sinal da deterioração total das condições de trabalho, a míngua já afeta o diagnóstico.

Judith León é presidente da Federação de Colégios de Bioanalistas da Venezuela. De acordo com ela, 70% dos laboratórios do país fecharam as portas por falta de matéria-prima e equipamentos. “Não há mais reagentes. Quem quiser descobrir sua doença, tem de correr os laboratórios particulares de Caracas, gastar muito dinheiro e torcer para encontrar um que faça o exame”, disse Judith. “Se alguém chega no hospital com febre, por exemplo, não há como saber se é bacteriana ou viral.”

Ela conta que os tubos de ensaio descartáveis, usados para a coleta de sangue, tornaram-se artigo de luxo na Venezuela. Diante da nova rotina, os laboratórios voltaram a usar material de vidro, que estava trancafiado em depósitos desde os anos 80. 

“O problema é que os tubos de ensaio de vidro têm de ser lavados e há mais risco de contaminação por reação com algum elemento. O resultado não é confiável”, afirmou Judith. Ainda de acordo com ela, não há gente suficiente para fazer o trabalho de assepsia e nem tubos para dar conta da demanda. “Os laboratórios da Venezuela retrocederam pelo menos 40 anos.”

A escassez afetou até a dentadura dos venezuelanos. “É muito difícil encontrar uma prótese dentária no país”, disse Pablo Quintero Villamizar, presidente do Congresso de Odontologia da Venezuela. “Falta tudo: anestesia, implantes, resinas e até algodão.” Segundo ele, é comum os dentistas lavarem as luvas, que deveriam ser descartáveis. “Quando não conseguimos material no mercado negro, temos de cancelar as consultas”, contou Villamizar. “Quando dá, perguntamos ao paciente e fazemos o tratamento sem anestesia.” 

Para Judith, a situação é tão ruim que a figura do paciente que morre na fila de um hospital – símbolo da falência do sistema de saúde em outros países da região – deixou de existir na Venezuela. “Passamos deste ponto há alguns anos. As filas diminuíram. Com a escassez, as pessoas chegam aos hospitais e são mandadas de volta para morrer em casa.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.