Em retaliação a ataque, Seul suspende laços comerciais com Coreia do Norte

Pressão. Governo da Coreia do Sul decide interromper quase toda a compra de produtos de Pyongyang, acusada de afundar navio sul-coreano em março; em visita à região, Hillary pede apoio da China para propor na ONU sanções contra o regime comunista

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2010 | 00h00

A Coreia do Sul anunciou ontem pesadas medidas de retaliação contra a Coreia do Norte, país que responsabiliza pelo ataque a um navio de guerra em 26 de março que provocou a morte de 46 marinheiros sul-coreanos. A mais dura delas é a interrupção de quase todo o comércio bilateral, o que deverá agravar ainda mais a situação econômica da empobrecida Coreia do Norte, que destina 38% de suas exportações para o vizinho do Sul.

Anunciadas pelo presidente Lee Myung-bak em rede nacional de televisão, as medidas incluem ainda a suspensão de todos os investimentos no país vizinho, a proibição do uso de rotas comerciais marítimas do Sul por navios do país, a interrupção de ajuda humanitária - com exceção da destinada a crianças - e a proibição de viagens de sul-coreanos para o norte.

Além das punições unilaterais, Lee afirmou que pedirá ao Conselho de Segurança da ONU que imponha sanções internacionais a Pyongyang. "Se as nossas águas territoriais, o espaço aéreo ou o território forem violados militarmente, nós vamos imediatamente exercer nosso direito à autodefesa", ressaltou o presidente. Lee exigiu que o regime de Pyongyang se desculpe pelo suposto ataque e puna os responsáveis por sua execução.

O presidente dos EUA, Barack Obama, ordenou aos comandantes militares americanos que coordenem suas ações com os sul-coreanos para "garantir a prontidão e a deter agressão". Em uma herança da Guerra da Coreia (1950-1953), os americanos têm 28 mil soldados na Coreia do Sul.

Na semana passada, a Coreia do Norte rejeitou as acusações de que afundou o navio sul-coreano e disse que irá à guerra caso seja alvo de sanções. Pyongyang propôs enviar a Seul um "grupo de inspeção" para rever a investigação que concluiu que o navio foi afundado por torpedo disparado de um submarino norte-coreano. A sugestão foi descartada pelo governo do Sul.

O embaixador do Brasil em Pyongyang, Arnaldo Carrilho, disse em entrevista ao Estado que as sanções terão "grande impacto" na economia da Coreia do Norte, já que a Coreia do Sul é o segundo maior parceiro comercial do país, atrás apenas da China. O Korea Development Institute, ligado ao governo de Seul, divulgou estudo segundo o qual a suspensão do comércio vai tirar de Pyongyang uma de suas principais fontes de dólares, que são utilizados para realização de negócios com outros países, especialmente a China, que responde por 57% das importações norte-coreanas.

A crise entre as duas Coreias transformou-se no principal tópico da visita de uma semana à Ásia que a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, iniciou na sexta-feira. Ela discutiu o tema nos encontros que teve com autoridades chinesas e pediu apoio do país à aplicação de sanções à Coreia do Norte pelo CS da ONU. "Precisamos trabalhar juntos mais uma vez para enfrentar esse desafio e promover nossos objetivos comuns de paz e estabilidade na Península Coreana", disse Hillary.

A secretária de Estado participa em Pequim da segunda rodada do Diálogo Estratégico e Econômico entre China e EUA, âmbito no qual os dois países discutem temas globais e de interesse bilateral. Principal aliado da Coreia do Norte, Pequim não deverá adotar sanções que coloquem o país vizinho em uma situação de calamidade econômica, o que poderia levar à implosão do regime de Kim Jong-il.

AÇÕES UNILATERAIS

Comércio bilateral

A Coreia do Sul suspendeu o comércio com a Coreia do

Norte, o que deve agravar ainda mais a situação econômica dos norte-coreanos, já que mais de 40% das importações do país chegam do Sul

Investimentos

Suspensão de quase todos os

investimentos sul-coreanos na Coreia do Norte, cortando parte do fluxo de moeda forte para o país

Navegação

Proibição do uso de rotas

comerciais marítimas

sul-coreanas por navios da

Coreia do Norte

Ajuda humanitária

Suspensão de ajuda

humanitária para a Coreia do Norte, com exceção da

destinada a crianças.

A ação tende a agravar ainda mais a pobreza e a fome

entre a população

norte-coreana

Viagens

Proibição de viagens de

sul-coreanos para os vizinhos do norte. A medida é outra

forma de impedir a entrada

de divisas no país

vizinho

Sanções multilaterais

Seul enviará o caso do

afundamento do navio

Cheonan ao Conselho de

Segurança da ONU para a

aprovação de sanções

multilaterais, o que deve isolar ainda mais o regime do líder

norte-coreano Kim Jong-il

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