Stephen Crowley/The New York Times
Stephen Crowley/The New York Times

Empresas alegam na Justiça que cerco de Trump a imigrantes dá prejuízo

Gigantes do setor de tecnologia apoiam ação judicial que bloqueou decreto de presidente, sob argumento de que barreiras à mobilidade comprometem a competitividade global e inibem a atração de talentos

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2017 | 05h00

A restrição à entrada de estrangeiros nos EUA determinada por Donald Trump não só contraria a Constituição, mas provoca “danos substanciais” ao setor privado americano, afirmaram 97 empresas de tecnologia que foram à Justiça pedir a suspensão do decreto assinado há 12 dias. Segundo elas, a medida reduz sua habilidade de recrutar talentos e inovar, causa incerteza, aumenta custos e diminui a competitividade.

Na lista das que contestam o decreto estão Google, Facebook, Microsoft, Netflix e LinkedIn. Com operações globais e milhares de funcionários, elas dependem de um sistema de imigração aberto e previsível para suas operações. “A mobilidade global é fundamental para negócios cujos clientes, fornecedores, usuários e empregados estão espalhados ao redor do mundo”, afirmaram as empresas em documento entregue à Corte de Apelações na Califórnia.

A manifestação foi apresentada em apoio ao Estado de Washington, autor da ação que levou à suspensão do decreto na sexta-feira. Segundo as empresas, a medida contraria a política de migração adotada pelo EUA nos últimos 50 anos e viola o princípio que proíbe discriminação com base em nacionalidade, raça, sexo e local de nascimento ou residência.

As companhias afirmam que a medida não faz sentido do ponto de vista econômico e afetará a competitividade global dos EUA. O principal efeito seria a redução da capacidade do país para atrair talentos. 

Levantamento divulgado no ano passado pela National Foundation for American Policy concluiu que 40% das startups americanas com valor superior a US$ 1 bilhão foram fundadas por nascidos em outros países. Algumas das gigantes de tecnologia também foram criadas por ou com a contribuição de imigrantes, entre as quais Google, Yahoo, eBay e Tesla. O indiano Sundar Pichai é CEO do Google. Seu compatriota Satya Nadella dirige a Microsoft e a CEO da Oracle, Safra Catz, nasceu em Israel.

“Pessoas que decidem deixar tudo e viajar para uma terra desconhecida para começar uma nova vida necessariamente são dotadas de vontade, criatividade e determinação”, dizem as empresas em sua manifestação. O decreto suspendeu por 90 dias a entrada nos EUA de cidadãos de sete países de maioria muçulmana. A decisão também interrompeu o recebimento de refugiados de todo o mundo por um período de quatro meses – os sírios estão barrados por prazo indeterminado. 

No documento que entregaram ao Judiciário, as empresas de alta tecnologia afirmam que enfrentam o risco de retaliação dos países afetados pelas restrições, o que reduziria a capacidade de realizar negócios no exterior. “Diplomatas americanos já relataram que a General Electric poderá perder contratos no Iraque no valor potencial de bilhões de dólares.”

Há várias ações contra o decreto de Trump nos tribunais e algumas já conseguiram suspender parcialmente a medida. A decisão proferida na sexta-feira por um juiz federal do Estado de Washington foi a que teve o mais amplo impacto. 

O magistrado ordenou que funcionários da administração federal deixassem de executar as medidas previstas no decreto e restabelecessem a validade de milhares de vistos cancelados nos dias anteriores. Trump usou o Twitter para criticar a decisão e ontem disse que o juiz será culpado “se algo acontecer”.

 Alexander Keyssar, professor de História e Políticas Sociais de Harvard, acha difícil que as empresas se oponham a outros decretos controvertidos se não estiverem diretamente afetadas. Para Renee Bracey Sherman, mestre em administração pública pela Cornell University, há esperança de que o amplo repúdio faça Trump recuar.

“É ótimo que algumas empresas estejam se voltando contra o decreto. Mas vale notar que alguns desses líderes continuam se reunindo com a equipe de Trump. Portanto, não posso colocar minhas esperanças em líderes corporativos para fazer o correto”, disse. / COLABOROU GABRIELA KORMAN

 

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