AFP PHOTO / Brendan Smialowski
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Enquanto Trump monopoliza política externa dos EUA, Departamento de Estado se cala

Rex Tillerson, secretário de Estado desde 1º fevereiro, está há duas semanas em silêncio, e imprensa não recebe mais os relatórios do porta-voz do departamento

O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2017 | 11h28

WASHINGTON - O Departamento de Estado dos EUA se mantém em silêncio há duas semanas, enquanto o presidente Donald Trump monopoliza a política externa. O Ministério das Relações Exteriores, criado em 1789, tem à sua frente desde 1º de fevereiro seu 69º secretário de Estado, que substituiu John Kerry. Mas o ex-presidente da ExxonMobil Rex Tillerson, novato na política, está trancado há quase uma semana em seu escritório no sétimo andar do edifício Foggy Bottom, no sul de Washington.

Com exceção de um primeiro discurso orientado para o consenso na quinta-feira diante de seus 2 mil funcionários, Tillerson não falou mais em público. Apesar de o engenheiro do Texas de 64 anos ter elogiado a "responsabilidade" e a "honestidade" de seus 70 mil diplomatas, funcionários e contratados espalhados em mais de 250 embaixadas e consulados, não mencionou as prioridades diplomáticas dos EUA.

As poucas entrevistas e conversas por telefone com seus homólogos estrangeiros foram apenas objetos de breves relatórios. Sua agenda semanal oficial cita somente "reuniões no Departamento de Estado", sem dar mais detalhes. O fluxo ininterrupto de comunicados sobre praticamente qualquer episódio minimamente relevante no cenário internacional também parou.

Incômodo. Desde 19 de janeiro, a imprensa não tem mais acesso aos relatórios do porta-voz do Departamento de Estado, uma fonte diária transmitida ao vivo na televisão, muito seguida nas redes sociais, que há décadas permite à diplomacia americana dar sua opinião sobre a crise e os conflitos no planeta.

O porta-voz de John Kerry, John Kirby, saiu junto ao seu ministro, apesar de seu adjunto, Mark Toner, um diplomata de carreira que trabalhou durante anos na administração de Obama, ter se mantido no cargo. Mas não se sabe ainda quando serão retomadas as coletivas de imprensa. "Continuamos trabalhando com a Casa Branca para ver como retomaremos os relatórios diários o quanto antes", disse Toner.

De qualquer forma, a política exterior dos EUA é elaborada na Casa Branca e no Conselho de Segurança Nacional. A administração de Trump não escapará desta regra.

Eleito com um programa nacionalista, protecionista e isolacionista, Trump tem polemizado em diversos contextos, ainda que os contornos de sua diplomacia continuem vagos. Ele conversou por telefone com vários chefes de Estado e de governo, entre eles seu colega russo, Vladimir Putin, com quem tenta uma aproximação.

Mas Trump atiça também as tensões internacionais, colocando Rex Tillerson em uma situação incômoda. O presidente aumenta as declarações polêmicas, em geral pelo Twitter, contra países rivais ou adversários de Washington, como China, Coreia do Norte e Irã, e contra aliados ou sócios comerciais, como Austrália, México e Alemanha.

Veto. O presidente provocou uma "insurreição" sem precedentes no Departamento de Estado com seu decreto anti-imigração que barra a entrada de cidadãos de sete países muçulmanos e refugiados nos EUA. O texto, entretanto, foi suspenso pela Justiça.

Durante a "insurreição" burocrática, segundo a expressão de um funcionário, mil diplomatas considerados progressistas assinaram um memorando interno "dissidente", no qual denunciam o decreto migratório. A rebelião diplomática não impede que o Departamento de Estado funcione, mas funcionários de alto escalão admitem que o trabalho é feito de forma mais lenta.

O ex-porta-voz da diplomacia americana Jeffrey Rathke recorda que durante as transições entre as administrações em 2001 (de Bill Clinton para George W. Bush) e 2009 (de Bush para Obama), "o Departamento de Estado retomou as coletivas de imprensa poucos dias depois da posse" do presidente em 20 de janeiro.

O relatório diário do porta-voz da Casa Branca, focado na política interna, não pode substituir o do Departamento de Estado, declara Rathke, hoje analista do Center for Strategic and International Studies (CSIS).

"A cada dia há muitos temas, menores ou maiores, em todas as partes do mundo, que são de interesse dos EUA. Não tratá-los publicamente supõe impedir a influência sobre eles", lamenta o ex-diplomata. / AFP

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