Entenda a polêmica dos dossiês britânicos sobre o Iraque

As discussões acerca do papel dos serviços de inteligência britânicos na guerra contra o Iraque continuam aumentando. A agência BBC explica os pontos mais controversos da polêmica que envolve o governo britânico, seus serviços de informações e o papel desempenhado pela própria BBC na questão. O que são os dossiês citados nas discussões? No último mês de setembro, em meio a crescentes especulações na corrida para a guerra contra o Iraque, o governo britânico lançou o tão esperado dossiê com as evidências sobre as armas de destruição em massa do Iraque. Entre outras acusações ? bastante enfatizadas no discurso do primeiro-ministro Tony Blair ?, destaca-se a de que ?pelos planos militares de Sadam Hussein, algumas armas de destruição em massa podem ser montadas em 45 minutos, prontas para serem utilizadas?. Um segundo dossiê ? conhecido como o ?dossiê pirata?, dada a forma como ele vazou de uma tese acadêmica - foi publicado em fevereiro. As informações levantadas pelo documento intensificaram discussões e especulações não somente acerca da guerra, mas também quanto à precisão das informações contidas no dossiê de setembro. E qual foi o estopim para a polêmica com a BBC? Um veterano oficial de inteligência britânico disse à BBC que o dossiê de setembro fora reescrito (ou "maquiado") nos moldes de Downing Street (a sede do governo britânico, residência do Primeiro Ministro), de modo a deixá-lo mais ?quente?. Segundo a fonte, o "apelo dos 45 minutos" foi um ?exemplo clássico? de proeminência desproporcional a uma evidência sequer verificada - principalmente porque ela veio de uma única fonte. Disse ele: ?aquela informação não estava no dossiê original. Ela foi incluída no documento contra nossa vontade, já que não era confiável?. Andrew Gilligan, correspondente de BBC que entrevistou o oficial, revelou ainda que outras três pessoas ?dentro ou de alguma forma ligadas à Inteligência? têm demonstrado, nos últimos seis meses, alguma preocupação quanto ao mau uso, por parte do governo britânico, das informações obtidas pelos serviços de inteligência. E qual a importância dessas informações? A justificativa de Tony Blair para ir à guerra contra o Iraque era a ameaça imposta pelas armas de destruição em massa nas mãos de Sadam Hussein. Qual foi a reação do governo britânico às revelações da BBC? O próprio governo afirmou que ?nenhuma palavra do dossiê fazia parte do trabalho das agências de inteligência?. Para Tony Blair, é ?absurdo? supor que Downing Street pressionou os serviços de segurança para que ?inventassem? evidências. Alguns críticos, entretanto, acreditam que o governo esteja se desviando da raiz do problema: que algumas evidências foram exageradas mais do que se esperava. Diversos ministros negaram que seja esse o caso e o diretor de comunicação de Blair, Alastair Campbell, está exigindo uma retratação por parte da BBC. O que os serviços de inteligência têm a dizer? John Scarlet, líder do Comitê de Inteligência (que supervisiona os relatórios do serviço de segurança para o governo), deixou claro que não houve manipulação das informações por parte do governo. A BBC, por outro lado, tomou o partido de sua fonte, alegando que agiu corretamente ao publicar tais preocupações. O que os parlamentares britânicos têm dito sobre o assunto? No último mês, o Comitê de Assuntos Internacionais da Câmara dos Comuns interrogou, publicamente, ministros, oficiais e jornalistas. Seu relatório, que acabou de ser publicado, inocenta Campbell de tentar exercer ?influência inadequada?, apesar de cinco membros desse comitê ressaltarem que não poderiam oferecer um julgamento definitivo sem verificar todos os papéis e testemunhas envolvidos no caso. Todavia, o comitê foi unânime em criticar o ?dossiê pirata? , assim como em afirmar que foi dada ênfase desproporcional ao "apelo dos 45 minutos". O júri ainda não tomou uma decisão sobre a acuidade do serviço de inteligência britânico na questão das armas do Iraque. Este foi o fim das investigações do Comitê de Assuntos Internacionais? Não. Mais tarde, o comitê interrogou David Kelly, conselheiro do governo e especialista em armas de destruição em massa, indicado como a possível fonte das revelações da BBC. Kelly, cujo corpo aparentemente foi encontrado depois de um desaparecimento na última quinta-feira, contou que encontrara Gilligan, o correspondente da BBC, mas não tinha sido sua fonte principal. Em seguida, as investigações voltaram-se para Guilligan, e dessa vez o interrogatório ocorreu em particular. Donald Anderson, diretor do comitê, chamou-o de ?testemunha não confiável?, afirmando que ele estava alterando a história à sua revelia. Tanto a BBC quando Gilligan negaram a acusação, sob alegação de que se tratava de uma história consistente. Há outras investigações sobre o caso? Uma outra investigação está sendo conduzida pelo Comitê de Segurança e Inteligência, apontado pelo primeiro-ministro, que possui acesso irrestrito aos relatórios ultra secretos dos serviços de informação. Este Comitê costuma se encontrar a portas fechadas e seus relatórios podem apagar materiais "sensíveis? dos documentos antes que eles cheguem a público. E quanto a um processo judicial independente? Parlamentares de oposição têm exigido uma investigação independente. O governo reitera que haverá uma, caso o corpo de David Kelly seja formalmente identificado, acerca das circunstâncias que levaram à sua morte. O relatório completo, assim como quem liderará as investigações, ainda está para ser anunciado. Leia abaixo outras notícias sobre o assunto: »Uma cronologia para ajudar a entender o caso David Kelly »Casa Branca libera documentos da CIA vinculados ao caso do Iraque »Secretaria da Defesa diz que David Kelly falou mesmo com BBC »Escritório de Blair quer investigar caso do especialista em armas »Polícia avança na identificação de corpo de perito em armas britânico »Encontrado corpo na busca por especialista em armas do Iraque

Agencia Estado,

18 Julho 2003 | 19h28

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