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EFE/David Fernández

Entrega de berços kirchneristas é suspensa pelo governo argentino

Três ex-ministros de Cristina são acusados de superfaturar kits de má qualidade para recém-nascidos

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Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires

17 Fevereiro 2016 | 16h22

BUENOS AIRES - O governo de Mauricio Macri pediu a suspensão da distribuição de kits infantis do Plan Qunita (Plano Berçinho, em tradução livre), lançado em julho de 2015 por Cristina Kirchner. Na terça-feira, 16, três ex-ministros kirchneristas foram acusados por irregularidades na licitação dos produtos, reprovados em avaliações técnicas ainda na administração anterior. O pedido para o fim da entrega ganhou destaque após a denúncia, mas foi encaminhado Ministério da Saúde no dia 5.

O juiz federal Claudio Bonadio inclui o ex-chefe de gabinete Aníbal Fernández e dois ex-ministros da Saúde, Juan Manzur e Daniel Gollán, entre 23 acusados em um processo cuja base é o superfaturamento dos kits. O magistrado pediu o bloqueio dos bens dos indiciados. Um dos programas sociais mais populares do governo de Cristina, o Plan Qunita consumiu 1,1 bilhão de pesos (R$ 293 milhões). Cada um dos 140 mil kits custou 8 mil pesos (R$ 2,1 mil), o que segundo o juiz representou um desvio de 3 mil pesos (R$ 800) por unidade ou 420 milhões de pesos (R$ 111 milhões) no total. 

O item principal do kit é um berço com alças de plástico que segundo o Instituto Nacional de Tecnologia Industrial (INTI) se rompe quando bebês passam dos sete quilos. As beneficiárias são mães desempregadas que recebem a Asignación Universal por Hijo, uma espécie de Bolsa Família, carro-chefe de todos os programas sociais no país. Pelo benefício, mantido por Macri, as mães ganham 270 pesos por mês por filho mantido na escola e vacinado.

Segundo o juiz, as empresas ganhadoras da licitação começaram a comprar os insumos antes de anunciado o resultado. Ele anexou ao processo a troca de ligações entre diretores delas, o que indica a combinação do preço, e salientou que nenhuma tinha experiência na área. 

Os três ministros se eximiram de responsabilidade, sem negar com veemência possíveis irregularidades. Gollán, que assumiu a pasta depois da licitação, argumentou que um ministro "não pode saber o preço de cada produto". Seu antecessor, Manzur, argumentou que assinou os papéis 20 dias antes de entregar o cargo para disputar o governo da Província de Tucumán, que ganhou em uma eleição marcada por denúncias. Fernández alegou que a licitação foi formalizada 15 dias antes de ele assumir o posto. 

O envolvimento de Fernández é o de maior repercussão porque ele foi o porta-voz do kirchnerismo durante o último ano. Envolvido em acusações não comprovadas de favorecer o narcotráfico, perdeu de forma surpreendente a disputa pelo governo da Província de Buenos Aires, onde estão 37% dos eleitores do país. Sua derrota foi decisiva segundo analistas para Macri superar o candidato kirchnerista Daniel Scioli no segundo turno da votação presidencial, em 22 de novembro.

O juiz Bonadio é o mesmo que teve o salário cortado em 30% em 2014 durante seu trabalho no Caso Hotesur, a principal investigação de corrupção envolvendo os Kirchners - há indícios de que o principal hotel da família tinha ocupação completa só no papel, em diárias pagas por um empresário ligado ao governo. O magistrado foi afastado da causa em julho e em agosto o corte de seu salário foi revisto. 

O nome de Bonadio passou a ser associado a ações contra o kirchnerismo. Este ano, ele processou o ex-secretário de Comércio Guillermo Moreno e o ex-presidente do Banco Central Alejandro Vanoli por alimentarem uma campanha contra o Grupo Clarín, inimigo de Cristina. Nesta quarta-feira, 17, Moreno ironizou a "casualidade" de ter sido acusado duas vezes (por incitação à violência e por peculato) na mesma semana por Bonadio, a quem chamou de "sujo". 

Em dois meses de governo Macri, sete kirchneristas passaram a ser investigados pela Justiça. Além dos cinco citados, o ex-vice-presidente Amado Boudou somou outra acusação a sua lista: ter viajado a trabalho em aeronaves de empresários amigos. José Sbatella, ex-presidente da Unidade de Informação Financeira, é suspeito de divulgar informações secretas sobre lavagem de dinheiro. O caso Hotesur, que envolve a família da ex-presidente e poderia influir em seu futuro político, não avançou.

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