REUTERS/Hannibal Hanschke
REUTERS/Hannibal Hanschke

Entrevista: 'Merkel está mais fraca', diz Josef Janning

Cientista político alemão diz que chances de chanceler ir ao termo de seus quatro anos de mandato são grandes, mesmo que sua liderança hoje seja menos proeminente do que no passado 

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2018 | 19h50

PARIS - Expert em política alemã e em relações europeias, o cientista político Josef Janning, diretor do escritório de Berlim do European Council on Foreign Relations, foi assediado nesta quarta-feira, dia 7, dia em que a chamada “groko" – sigla alemã para “grande coalizão” foi oficializada. Para o especialista, a chanceler Angela Merkel chega enfraquecida a seu quarto mandato, em razão da dependência do Partido Social-Democrata (SPD) na formação do novo gabinete. Mas, ao contrário de alguns analistas, Janning acredita que a líder da União Democrata-Cristã (CDU) poderá ir até o fim de seu mandato, completando 16 anos no poder. 

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A grande coalizão ainda terá de ser avaliada pelos militantes do SPD. Quais são suas chances de sucesso?

É muito possível que a grande coalizão se confirme, mesmo que ainda não seja certo. Ambos os lados, em especial suas lideranças, querem o acordo, o que deve levá-lo ao sucesso. Mas a questão é se a posição do líder do SPD, Martin Schulz, prevalecerá. Schulz terá de ganhar o debate interno, e esse debate será controverso. Essa é a razão pelo qual o resultado está em aberto. Os delegados do partido disseram sim, mas solicitam renegociações decisivas, o que reabriu as discussões. A segunda possibilidade de fracasso é de parte dos militantes, consultados em um referendo interno, como o que era desejado por alguns líderes, como Sigmar Gabriel, há quatro anos. Eles terão de explicar aos militantes por que mudaram completamente sua opinião.

Na Alemanha, cogita-se que Angela Merkel seja incapaz de governar os quatro anos, embora tenha alta capacidade de adaptação. O Como o senhor avalia suas chances?

Em termos relativos, Angela Merkel é capaz de manter a coalizão nos próximos quatro anos. É claro que ela está mais fraca, porque o CDU não conseguiu a maioria no Parlamento. Mas essa é a dinâmica da política na Alemanha. Merkel está no posto há muito tempo, e isso leva a um desgaste. É verdade que a chanceler não é mais muito fresh, e as pessoas não esperam nenhuma surpresa de sua parte. Mas no interior do partido, no CDU, não há contestação sobre sua liderança.

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Logo suas chances são altas?

A “Groko" (sigla para "grande coalizão", em alemão) é quase uma garantia de que Angela Merkel seguirá no comando até o último dia do mandato, ou ao menos até o último dia da coalizão. E o SPD deverá insistir para que Merkel fique no poder. Para que o partido tenha chances nas próximas eleições, seus líderes desejarão que o CDU não passe por uma renovação e que acabe mais desgastado ao longo dos próximos anos.

Muito se fala que a nova coalizão será favorável à reforma da União Europeia. Qual é sua opinião?

A nova grande coalizão será definitivamente muito favorável a Macron. Eles dirão sim às reformas, e a França estará no centro dessas reformas. A nova grande coalizão será muito explícita em sua política pró-Europa, pró-integração. Por outro lado, o governo será muito seletivo no número de temas que serão passíveis de reformas, como a criação de um European Monetary Fund, por exemplo.

Macron propôs também um orçamento europeu, sob liderança de um ministro europeu das Finanças. Essa proposta é vista como realista do lado alemão?

Não há apoio à criação do orçamento europeu, como proposto por Macron, mas talvez para agências que serão encarregadas de realizar reformas, com orçamento e objetivos claros. Entre os lados alemão e francês, haverá um certo acordo sobre reformas e agências capazes de patrociná-las, mas sob estrita regulação legal.

 

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