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AP Photo/Marcio Jose Sanchez

Equipe de Sanders desafia a tradição

Estratégia digital é o foco da campanha do senador democrata para atingir jovens

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Daniel Trielli, Especial Para o Estado / Washington,
O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2016 | 22h12

WASHINGTON - Quando anunciou a candidatura à presidência dos Estados Unidos, em abril, Bernie Sanders era um azarão. Iam contra ele sua ideologia - à esquerda dos democratas -, sua idade - seria o presidente mais velho da história - e sua base geográfica - o minúsculo Estado de Vermont. 

Menos de um ano depois, Sanders alcançou Hillary Clinton em pesquisas nacionais, empatou em Iowa, ganhou em New Hampshire e desafia o establishment democrata. Por trás dessa arrancada está a campanha “guerrilheira” que, com pouca estrutura, foca em estratégias digitais, engaja os “millennials” (geração da internet) e reverte o apoio em fundos de campanha.

Um dos principais arquitetos desse plano é Scott Goodstein, fundador da Revolution Messaging, empresa com sede em Washington. Goodstein, que trabalhou na campanha de Barack Obama em 2008 e foi consultor de Dilma Rousseff em 2010, diz que, pela primeira vez, a equipe digital é responsável pela arrecadação e a definição da mensagem da campanha inteira. “Esses comícios que conseguimos fazer, com 25 mil, 30 mil pessoas em Los Angeles, 10 mil pessoas em Wisconsin - tudo isso está vindo por meio do digital e não da estrutura do partido”, revelou ao Estado

A estratégia inclui usar um arsenal - e-mails diretos, mensagens de texto, posts de Facebook, Twitter, Snapchat e até um aplicativo na Apple TV - de forma coordenada. “O que está ocorrendo é um exemplo de como uma campanha pequena, com pouco dinheiro, pode se tornar mais ágil. Essas ferramentas são tão poderosas que podem igualar os lados”, conta Goodstein.

Com cerca de 50 funcionários, a Revolution seleciona os clientes com base em identificação ideológica: só trabalha para causas e candidatos de esquerda. “Para nossa firma, a questão é: nós vamos adicionar valor a uma campanha progressista, com a qual concordamos em termos morais?” E o socialista de Vermont se encaixa. “Bernie fala com o público sem muita frescura. Nosso trabalho é garantir que isso seja comunicado.”

Goodstein atribui a esse trabalho o fato de a campanha de Sanders estar conseguindo mobilizar os “millennials”, público até então considerado apático. 

Para o estrategista, a chave é conversar com eles sem ser condescendente. O contraexemplo que ele cita é um tuíte da campanha de Hillary que pediu aos seguidores descrever “em três emojis” como se sentem sobre empréstimos estudantis. “Por outro lado, Bernie diz: ‘é um bloco significativo de eleitores, com preocupações reais. Talvez possamos ter uma conversa de verdade’.”

E a campanha apela para o sentimento de revolta e exclusão dos “millennials”. Antes da votação em Iowa, a campanha criou um site cuja tradução é “Prove que eles estão errados e vote” (provethemwrongandcaucus.com). O site incita: “Eles dizem que você não se importa. Dizem que você não vai votar na prévia. Dizem que Bernie não pode ganhar. Prove que eles estão errados”. 

Verba. Essa “revolta dos millennials” está se revertendo em dinheiro. Segundo a Comissão Federal Eleitoral, 72% do valor arrecadado por Sanders até 31 de dezembro (último balanço oficial) vem em montantes de até US$ 200. É o que nos EUA analistas chamam de movimento “grassroots” (raiz de grama): horizontal e capilarizado. No caso de Hillary, só 16% do total são em valores pequenos.

A campanha de Sanders diz ter arrecadado mais US$ 20 milhões de 770 mil doadores em janeiro. No último dia 10, após a vitória em New Hampshire, a equipe anunciou que, nas 18 horas após o fechamento das urnas, havia levantado mais US$ 5,2 milhões. E isso também é apoiado na tecnologia: em janeiro, a empresa anunciou que criou um sistema para que os eleitores pudessem contribuir por meio de mensagens de texto.

Isso não significa que Hillary esteja perdendo. Ela ainda arrecadou mais (US$ 110,1 milhões até a virada do ano, contra US$ 73,4 milhões de Sanders) e tem a maioria de apoios de integrantes do partido: 12 governadores, 39 senadores e 153 deputados federais, contra só três deputados que se declaram por Sanders. 

“Eles são a maior marca do Partido Democrata e nós estamos com um social-democrata independente de um Estado muito pequeno”, reconhece Goodstein. Mas ele é otimista. “Nos EUA, menos da metade da população vota. Estamos trazendo mais pessoas e discutindo os assuntos. Para pessoas que ficaram de fora até agora, isso importa.”

Brasil. Em uma das paredes do escritório da Revolution em Dupont Circle, em Washington, está um certificado assinado pela presidente brasileira Dilma Rousseff, agradecendo pelo apoio na eleição de 2010. 

Goodstein diz que os políticos do Brasil ainda não sabem como usar o poder da internet e falta aos consultores do País pensar em esforços coordenados. “O maior desafio (de 2010) foi que a equipe de comunicação, a equipe de digital, a de mídia e a estrutura do PT ficavam em salas diferentes e nem conversavam entre si. Era arcaico.”

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