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Escassez fez classe média se voltar contra Maduro

Luiz Raatz, enviado especial/CARACAS

23 Fevereiro 2014 | 12h 36

Revolta com falta de produtos e economia em descontrole criaram condições para que chamado da oposição às ruas ganhasse força

Em meio ao cheiro de lixo queimado das barricadas que fecham o trânsito, misturado com o de gás pimenta lançado pela polícia, uma palavra se destaca: escassez. Esse é o principal motivo apontado pelos manifestantes para tomarem as ruas em protesto contra o presidente Nicolás Maduro.

 

Irritados com a crise econômica, atenderam ao chamado de uma facção da oposição, liderada pelo ex-prefeito de Chacao Leopoldo López, pela deputada María Corina Machado e pelo prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, para tomarem as ruas. Com o recrudescimento da repressão policial e a prisão de López, na terça-feira, a insatisfação aumentou. Na quarta-feira, cerca de mil estudantes, com o rosto pintado, se reuniram em Altamira, área nobre de Caracas.

 

A estudante de música Kimberly Claro diz que protesta porque sua família está cansada de percorrer os mercados e fazer filas atrás de carne, frango, leite, azeite, água e até mesmo papel higiênico. "Estou aqui sobretudo contra a escassez. Estudo, trabalho e minha família não merece isso", disse ao Estado, enquanto corria na direção oposta à das bombas de gás lacrimogêneo atiradas pela Guarda Nacional Bolivariana (GNB). "Quero um futuro. Não quero viver num país com a situação assim."

 

Mais exaltado, um rapaz com o rosto coberto por uma camiseta tentava organizar a resistência contra o avanço da GNB na Avenida Altamira Sul. Do topo de um banco, discursou para os colegas. "O importante não são os políticos, amigos. O importante são as ideias. Capriles, Ledezma, López nos deram a oportunidade", gritou. "Ou nos atendem ou queimamos Caracas." Ao lado de um grupo de rapazes, também encapuzados, ele acendeu coquetéis molotov e os atirou contra a polícia.

 

O papel da oposição no incentivo aos protestos motivou Maduro a denunciar uma tentativa de golpe de Estado contra ele e a pedir a prisão de López. O deputado Eduardo Sigala, do grupo de María Corina, diz que sua facção da oposição optou pela estratégia de tomar as ruas, conhecida como "La Salida", em razão dos graves problemas econômicos do país.

 

"É um processo que está nos levando ao colapso", declarou. "Capriles foi um líder importante, mas nessa oportunidade a liderança foi de López, María Corina e Ledezma." Segundo analistas venezuelanos, com a derrota nas eleições municipais, em dezembro do ano passado, uma divisão que já existia dentro da Mesa da Unidade Democrática (MUD, a coalizão opositora) se tornou mais evidente quando o bloco começou a discutir o que fazer em 2014.

 

López, María Corina e Ledezma queriam mobilizações de rua para pedir a renúncia de Maduro. Capriles preferia apostar na via institucional e na tese de que a crise econômica acabaria "sangrando o chavismo". "A MUD, que tem seus próprios desencontros, preparou a população nos últimos anos só para votar, mas não a preparou para um cenário de crise econômica como o que estamos vivendo", disse o analista Omar Noria, da Universidade Simón Bolívar.

 

Luis Vicente León, do Instituto Datanálisis, acredita que os protestos não sejam exclusivos de um setor radical da oposição. "Uma escassez de 28 % – a maior da história – é muita coisa e isso tira as pessoas de casa", afirmou ao Estado. "Com a repressão e a prisão, as pessoas se unem para protestar também por outros direitos."

Os manifestantes têm um perfil similar. Jovens de classe média, viveram a maior parte da vida sob o chavismo. No último ano, viram a situação macroeconômica do país se desintegrar. No mercado paralelo, o dólar saiu de 12 bolívares para 87. A inflação nos últimos 12 meses chegou a 56%.

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