Escolas religiosas do Taleban amenizam discurso anti-EUA

As insistentes advertências aos grupos religiosos para que parem com a conclamação à jihad (guerra santa) contra os EUA parecem estar finalmente surtindo efeito. As madrassas - escolas religiosas que têm profundos vínculos com a milícia Taleban, que controla o Afeganistão - aparentemente baixaram o tom das acusações contra os americanos, apesar da intensificação dos ataques militares ao território afegão. Pelo menos é isso o que se observa na Madrassa Faisal u-Haq, de Taxila - cerca de 50 quilômetros a oeste de Islamabad. O nome da escola destaca-se sobre o lema "unidade, fé e disciplina", inscrito no arco do portal que dá acesso ao edifício principal. "Nessas últimas semanas, as madrassas foram mostradas ao mundo ocidental como escolas de ódio, e isso não corresponde à realidade", declarou à Agência Estado o mulá Aziz Khalil Mohammed, diretor da instituição. "Isso é uma injustica contra as madrassas, que são a base do sistema de educação do Paquistão, e contra a nossa religião. O que formamos aqui são bons homens e bons muçulmanos e não soldados do Islã." A versão das madrassas sobre os ataques À pergunta da AE sobre como as madrassas estavam explicando às crianças - no caso da escola de Taxila, com idades entre 7 e 14 anos - aquilo que está se passando no Afeganistão, Mohammed antecipa-se: "Com clareza e verdade", diz. "Explicamos que a série de ataques de 11 de setembro nos EUA não foi totalmente esclarecida, mas que os americanos vincularam alguns dos supostos seqüestradores com (o terrorista saudita) Osama bin Laden", afirma Mohammed. Enquanto fala, o mulá entra numa das salas de aula, onde umas 25 crianças na faixa etária de 10 anos assistem à uma aula de matemática. Os alunos se levantam quando o vêem e o saúdam em urdu. "Nosso visitante brasileiro não entende urdu", diz ele às crianças em inglês, antes do coro: "Good morning, sir!" "Também explicamos, à luz do Corão e dos costumes afegãos, por que o governo do Taleban não pode expulsar um hóspede", prossegue Mohammed. "Explicamos as razões práticas que levaram o presidente (Pervez) Musharraf a dar apoio aos EUA contra o Afeganistão. Explicamos, enfim, todos os fatos para que os alunos possam tirar suas próprias conclusões a respeito do tema", acrescentou. E esses alunos estariam dispostos a juntarem-se numa jihad contra o agressor de um país muçulmano? "O conceito de jihad implica a existência de uma guerra como foram, por exemplo, as cruzadas, nas quais uma religião pretende sobrepor-se a outra, e esse não é o caso aqui. O que temos entre EUA e Afeganistão é um estado que pretende pressionar, por meio da força militar, outro Estado a tomar uma ação específica, que seria a entrega de Osama. Muitos dos alunos daqui entendem que não há provas suficientes contra Osama e o admiram como defensor do Islã, mas não acredito que eles estariam dispostos a fazer a jihad por ele." Mudança de hábito Há apenas duas semanas, a posição das madrassas - estimam-se que elas sejam mais 30 mil espalhadas pelo Paquistão - em relação aos ataques americanos contra o Afeganistão seria bem menos condescendente. A pressão exercida por Washington contra o Taleban vinha sendo vista como uma "conspiração dos infiéis contra o Islã". Muitas das manifestações violentas registradas em Karachi, Quetta e Peshawar tiveram origem nas escolas religiosas e o ódio contra os EUA se expressava quase em uníssono. A situação começou a mudar quando os protestos começaram a comprometer a estabilidade do regime militar liderado por Musharraf no Paquistão e os porta-vozes do governo advertiram que Islamabad "teria prazer" em enviar os mulás que vinham pregando o ódio sectário ao Afeganistão para juntar-se à jihad contra a aliança antiterror liderada pelos EUA. Três ulemas paquistaneses considerados muito próximos do regime afegão foram postos sob prisão domiciliar por Musharraf nos últimos dias. Mohammed assegurou, porém, que a posição relativamente moderada da madrassa de Taxila em relação ao conflito que envolve o Taleban e os EUA não se deve às advertências do governo. "Creio que as madrassas de Quetta e Peshawar têm opiniões mais radicais sobre esse assunto. Nem todos precisam pensar de uma única forma", explica Mohammed. "Mas o governo não tem influência sobre as ações ds madrassas, assim como as madrassas não influenciam as ações do governo." Leia o especial

Agencia Estado,

18 Outubro 2001 | 17h18

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