Espanha era alvo não tão provável para o EI

Ataques da Catalunha não parecem ser parte de um esforço realmente coordenado pelo comando do grupo extremista

The Economist, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2017 | 05h00

A Catalunha, que abriga a maior população muçulmana da Espanha, é palco de radicalismo há algum tempo. De 2012 para cá, a polícia conduziu 30 investigações antiterroristas na região, tendo detido 62 suspeitos. Em abril, nove pessoas foram presas em Barcelona e nos arredores da cidade, supostamente envolvidas com os atentados terroristas de Bruxelas de março de 2016. O jornal El Periódico diz que a CIA alertou a Espanha para a iminência de um atentado em Barcelona, mas a agência de inteligência americana não parecia ter mais detalhes.

O Estado Islâmico assumiu a responsabilidade pelo ataque nas Ramblas, dizendo tratar-se de uma “resposta à convocação para a realização de ataques a países da coalizão” - referência ao grupo de países, liderados pelos EUA, que combatem o grupo. Foi a pior ação jihadista na Espanha desde os atentados a bomba contra trens metropolitanos de Madri, que mataram 191 pessoas em 2004.

Se os ataques de Madri foram, supostamente, uma represália à participação do país na invasão do Iraque, a motivação dos últimos atentados parece menos óbvia. Na atual campanha contra o EI e outros grupos jihadistas, a Espanha tem participação menor, fato que alguns imaginavam reduzir os riscos de um atentado. Em 2015, a Espanha retirou quase todas as tropas que mantinha no Afeganistão. O país não participa da campanha aérea contra o EI no Iraque e na Síria. Cerca de 400 soldados espanhóis ajudam no treinamento de forças da polícia e do Exército iraquianos. Na África, a Espanha também contribui com aviões de transporte em missões lideradas pela França no Gabão e no Senegal, além de manter um pequeno contingente de 150 soldados no Mali.

De qualquer forma, no emaranhado de ressentimentos que os jihadistas cultivam contra o Ocidente, não é difícil encontrar pretextos para um atentado. Mas a escolha dos alvos de ações na Europa talvez tenha menos a ver com os planos dos líderes do EI, cada vez mais acuados em seu autodeclarado califado, do que com a disponibilidade de extremistas, em alguns casos radicalizados por conta própria, dispostos a executar ataques.

Um detalhe importante que as autoridades antiterroristas tentarão verificar é se os atentados da Catalunha foram cometidos por jihadistas europeus que regressaram da Síria. Ao contrário da Al-Qaeda, ao reivindicar a responsabilidade por atentados, o EI não costuma divulgar vídeos em que os terroristas anunciam seu “martírio”.

Mesmo na remota hipótese de que o EI esteja planejando uma investida coordenada contra a Espanha, o que realmente importa é que os atentados atingiram a Europa toda e o mundo: entre os mortos e feridos, há alemães, franceses, italianos, belgas e gregos. Além deles, contam-se entre as vítimas cidadãos australianos, paquistaneses, filipinos, venezuelanos e chineses.

O turismo é o motor da recuperação econômica da Espanha desde a crise financeira de 2007-2008. O país recebeu um recorde de 75 milhões de turistas em 2016 e espera número ainda maior este ano: o crescimento no primeiro semestre de 2017 foi de quase 12%, na comparação com igual período do ano passado. Em parte, a Espanha vinha se beneficiando do fato de que outros países, como Tunísia, Turquia e Egito, haviam sido alvos de atentados. Barcelona é o principal polo turístico da Espanha, recebendo anualmente 9 milhões de visitantes que permanecem pelo menos uma noite na cidade.

Em 2004, os atentados de Madri tiveram impacto político imediato, eliminando as chances de reeleição do Partido Popular, de centro-direita, na votação realizada alguns dias mais tarde. Não ajudou nem um pouco que seus líderes tivessem equivocadamente atribuído os atentados à organização separatista basca ETA. Não se sabe se os atentados enfraquecerão o apoio à independência da Catalunha no controvertido referendo que o governo da região marcou para 1.º de outubro. Por ora, os barceloneses estão mais preocupados em guardar luto pelas vítimas. Ao retornar às Ramblas, no dia seguinte ao massacre, os pedestres se punham espontaneamente a cantar “não temos medo”. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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