AFP PHOTO / FABRICE COFFRINI
AFP PHOTO / FABRICE COFFRINI

‘Espectro da guerra atômica paira sobre nós de novo’

Chefe de ONG ganhadora do Nobel da Paz mostra preocupação com Irã e diz que Brasil ajudou a aprovar tratado na ONU

Entrevista com

Beatrice Fihn, diretora executiva da Ican

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / ONU, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 05h00

Acabar com as armas nucleares não é um sonho. Quem insiste nessa missão é Beatrice Fihn, diretora executiva da Ican, entidade ganhadora do prêmio Nobel da Paz. Ao Estado, a sueca criticou abertamente o comportamento do governo de Donald Trump e destacou que o Brasil, primeiro signatário do Tratado para Abolir as Armas Nucleares, tem de convencer o restante dos Brics a aderir ao pacto. 

Qual a responsabilidade que o prêmio da agora para vocês?

 Temos que levar o tratado para a abolição das armas nucleares adiante e o fazer um sucesso. Que ele tenha um impacto fora e desafiar todos os dias aqueles que defendem as armas nucleares. Dizer claramente que elas são ilegais e inaceitáveis. Hoje, essas armas são vendidas como elementos absolutamente necessários para nossa segurança. Mas os mesmos governos dizem que precisam acabar com elas. Não faz sentido. A comunidade internacional precisa tomar uma decisão: ou são ruins para a humanidade ou são essenciais. Por anos, os governos conseguiram manter essa posição inconsistente. Mas, agora, o tratado expõe a inconsistência. Ou você defende sua existência pela questão de segurança, o que implicaria que todos deveriam ter o direito de te-lo, ou ninguém pode e são perigosos. 

 O que representa o tratado?

No fundo, ele é a esperança de que podemos ter um mundo no qual ameaças de destruição em massa não são autorizadas. Hoje, prevalece a escalada militar. Esse é um momento de enorme tensão global, quando a retorica pode facilmente levar a um horror sem palavras. Insisto que o espetro da guerra nuclear paira uma vez mais sobre nós.  

O que vocês pedem de governos? 

 Que todos assinem o acordo. Se há algum momento de que nações devam declarar sua oposição às armas, esse é o momento. Precisamos seguir esse caminho antes que seja tarde.

Como a sra. espera conseguir convencer os demais países a aderir?

Políticos só tomam decisões quando eles são forçados. Precisamos, portanto, força-los e criar uma situação desconfortável. Neste momento, precisamos pressionar na direção da eliminação dessas armas, o que ajudará governos a tomar decisões de corte de orçamentos na área nuclear.  

Mas, na prática, como isso é feito? 

Mobilização pública será fundamental. A Holanda, que é um membro da OTAN, participou porque seu Parlamento assim exigiu. Precisamos estigmatizar a arma e transformar sua existência em um debate público. Políticos só querem é reeleição e farão o que sua população exija. Ao reunir o poder das pessoas, trabalhamos para trazer ao fim as armas mais destrutivas jamais criadas. São milhões de ativistas e cidadãos pelo mundo que, desde o início da era atômica, protestam contra essas armas e que elas precisam ser banidas do mundo. 

Mas o que fazer se as potências nucleares continuarem de fora?

 Primeiro não as chamamos de “potências” nucleares. Simplesmente porque a bomba não os da o poder. Essa arma não traz estabilidade ou paz. Isso vemos agora na Coreia. Ninguém hoje ali se sente seguro. Nem a Coreia do Norte, nem a do Sul, nem o Japão e nem os EUA. O tratado que foi assinado torna essas armas ilegais e estabelece um caminho para sua total eliminação. Qualquer nação que busque um mundo mais pacífico, livre da ameaça nuclear, terá de assinar e ratificar esse tratado sem demora. 

 Governos menores tem se queixado de que estão sendo pressionados a não assinar o Tratado. 

Existem ameaças de vários países nucleares a suas ex-colônias e aliados. Isso mostra o real impacto do tratado. Os EUA não estariam fazendo uma campanha contra se não sentissem que o acordo tem um impacto real. Estão lutando com tudo o que podem para manter legitimidade dessas armas. Claro, para os pequenos países, é difícil resistir. Mas, ao mesmo tempo, declarar que as armas são ilegais não é uma escolha difícil. É sim ou não.  

 A América Latina tem aderido ao tratado e o Brasil foi o primeiro a assinar. Como a sra vê isso? 

A América Latina esteve na liderança desse processo. A crise dos misseis cubanos criou na região um sentimento de que a região precisaria estar livre disso. Isso também mostra que, com grandes tensões, progressos podem ser feitos. México e Brasil foram líderes nesse processo.

  Qual a responsabilidade agora do Brasil?

O governo tem sido um dos principais protagonistas. Mas agora precisa garantir que os demais países da sua região façam parte do tratado. Também é uma peça fundamental para convencer os Brics a se aliar à iniciativa. O Brasil é muito influente e precisa agora promover esse tratado e ser parte da liderança, pressionando outros a assinar também. 

  O mundo está mais perigoso hoje que durante a Guerra Fria?

 É difícil dizer. Para alguns, certamente está mais seguro. Mas há um clima de incerteza. Não sabemos exatamente para onde o mundo vai. Vemos extremistas, nacionalismos e isso é o momento para apoiar princípios humanitários, a ONU e aderir ao tratado. O risco de uma guerra nuclear é real.

 Faz sentido militarmente a existência dessas armas?

O equilíbrio do terror não faz mais sentido e não funciona. Não existe mais dois blocos. Num mundo multipolar, esse equilíbrio pelas armas não funciona. Hoje, a guerra mudou. Hoje não arrasamos cidades. Militares tem hoje drones e ataques cirúrgicos. Jogar radiação em um território que vai cruzar as fronteiras não é racional.  Essa é a pergunta que temos de fazer. Elas tem utilidade mesmo? Em termos militares ainda são válidas? Trata-se de uma tecnologia velha, de 1945. Não faz seu trabalho de forma adequada. Ao mesmo tempo, ela coloca a existência da humanidade em risco. A crença de alguns governos de que elas são legitimas para segurança é falsa e perigos. A única coisa que faz é gerar uma proliferação.

  A arma nuclear perdeu então seu poder de gerar um equilíbrio entre as potências?

 Olhe para a situação da Coreia do Norte. O que há é uma escalada, não um equilíbrio. Por enquanto, essas armas apenas estão levando a uma escala da tensão e que pode explodir. 

Qual o caminho para resolver a questão coreana?

Negociação e diplomacia são as soluções. Mas a solução de longo prazo é acabar com as armas. 

 Há apenas dois dias, a sra. chamou Trump de idiota nas redes sociais. Qual sua avaliação sobre o comportamento do presidente americano?

 Era uma brincadeira. Queria ser engraçada. Mas me arrependo um pouco. Agora, a realidade é que sua existência como presidente deixa muito gente desconfortável com a ideia de que ele possa ter o poder de usar a arma nuclear. Um homem que não escuta especialista coloca em alerta o mundo. Não há mãos certas para lidar com essas armas. Na realidade, não é que estamos desconfortáveis com a existência de Trump. É com a existência das armas. Não há ninguém que possa ser confiável.

 Trump tem criticado o acordo nuclear com o Irã. Qual seria o impacto do fim desse entendimento?

Seria um enorme risco se o acordo fosse desfeito, principalmente com o Irã mostrando que está cumprindo. Seria lamentável. O acordo precisa ser mantido.

 Em 2009, Obama fez um discurso anunciando que iria propor uma redução dos estoques atômicos, com o objetivo de colocar um fim à essa era. O que ocorreu de errado desde aquele ano? 

Obama mostrou visão e deixou claro que líderes podem ter essa visão. Ele colocou muita pressão nos demais países. Mas não teve um apoio amplo. É difícil um só ter esse impacto, quando você toda a indústria indo na outra direção. Hoje, o que precisamos fazer é desvalorizar as armas nucleares. Enquanto falarmos que ela importante, não vai acabar. 

 Mas não é um sonho achar que essas armas vão desaparecer?

 Não é um sonho. É uma necessidade humanitária.  A sociedade civil atuou desde 1945  contra essa arma e não vai parar. Seu fim não ocorrerá amanhã. Temos de ter paciência. Mas esse é o momento. Conseguimos o prêmio Nobel porque conseguimos um acordo. Não porque prometemos algo. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.