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Esperança em Teerã

Raras são as boas notícias vindas do Oriente Médio. Contudo, aqui temos uma: os resultados das eleições no Irã manifestam um avanço centrista, e portanto um sucesso do presidente moderado, Hassan Rohani.

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Gilles Lapouge

03 Março 2016 | 05h59

Só para lembrar: depois da ascensão ao poder do aiatolá Khomeini, em 1979, e do advento de uma teocracia ao mesmo tempo lírica e delirante, o Irã tornou-se uma mancha preta no mapa do Oriente Médio. Ainda em 2007, há menos de dez anos, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad - cuja cabeça era uma fogueira permanentemente acesa - duvidava do Holocausto nazista. Um pouco mais tarde, o vice-presidente de George W. Bush, Dick Cheney, propunha bombardear o Irã.

A batalha n-ão foi fácil. Os ultraconservadores fizeram de tudo para barrar o caminho dos moderados. Sua campanha eleitoral foi marcada por uma violência insana. Por exemplo, eles sugeriram que o ministro das Relações Exteriores de Rohani, Mohammed Javad Zarif, para eles culpado de ter colaborado com o americano John Kerry para solucionar a questão nuclear, fosse enterrado vivo num tanque de cimento.

Rohani soube escapar de todas as emboscadas em seu caminho - o que revela que ele não é nenhum novato, um amador -, mas um verdadeiro político. Ele não quer acabar com o “velayat e-faqih” (o governo dos clérigos), pretende apenas purgar o governo dos seus venenos, fazer com que a religião retorne à esfera privada, e reintroduzir seu país no concerto das nações. Já venceu um obstáculo maior solucionando, com Barack Obama (belo sucesso do americano, aliás), a questão das armas nucleares, terrível ameaça, hoje obsoleta. Agora, ele precisa voltar a pôr ordem na casa e reanimar uma economia esgotada por três décadas de messianismo e anos de sanções.

A missão não será tão impossível. O Irã é um país grande, poderoso e jovem, com 70 milhões de habitantes). As ruas das cidades são alegres, animadas e livres. Os jovens das cidades são em sua maioria pró-ocidentais. As moças têm acesso à educação tanto quanto os rapazes. E não gostam muito de ocultar o rosto atrás de um véu - que, no Irã, é discreto.

Simultaneamente, a retirada das sanções ocidentais injeta uma poderosa dose de oxigênio ao aparelho produtivo esgotado do Irã. Em alguns meses, foram assinados numerosos contratos. A França fornecerá aviões, fábricas, indústrias automotivas, produtos de luxo. Alemanha, Grã-Bretanha, Itália e EUA estão presentes em Teerã.

Entretanto, duas preocupações permanecem. A primeira é que o principal recurso do Irã, o petróleo, está sendo profundamente afetado pela queda persistente dos preços. A segunda ameaça remete à esfera do religioso. Sabemos que, na República Islâmica, as estruturas do poder são obscuras. Elas comportam um poder normal, de que está investido o presidente Rohani. E há outro poder, o poder religioso do líder supremo, atualmente Ali Khamenei, o verdadeiro número 1.

O líder supremo é escolhido pela Assembleia dos Especialistas, um corpo de religiosos eleitos com um mandato de oito anos pelo voto direto, que têm o poder discricionário de nomear ou de revogar o líder supremo. Ocorre que, nas eleições de sábado, o Irã escolheu não apenas um Parlamento, mas também a famosa Assembleia dos Especialistas. E o presidente Rohani, como para completar sua vitória nas eleições legislativas, ingressou também na Assembleia dos Especialistas.

Outros candidatos próximos de Rohani foram escolhidos para o Colégio. Isso significa que Rohani não terá apenas o poder do presidente, que dura até o final do seu mandato (em meados de 2017), mas também estará presente na poderosa Assembleia dos Especialistas, que, a qualquer momento, pode revogar ou nomear o líder supremo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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