REUTERS/Fabrizio Bensch
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Esperança europeia

Macron tem uma virtude suplementar para Bruxelas: ele tem fé na Europa

Gilles Lapouge, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2017 | 05h00

Na quinta-feira, começou a Cúpula Europeia. Coisa de rotina? Não. O continente atravessa um período estranho, com más estrelas (as teimosia de Trump, em particular, sobre o clima, o início das conversações sobre o Brexit com uma Theresa May enfraquecida e, portanto, imprevisível), mas também estrelas boas: fim da demorada crise econômica mundial, retomada das indústrias, reveses dos partidos populistas de extrema direita e antieuropeus em todos os países, a começar pela França onde Marine Le Pen vacilou.

Emmanuel Macron, o jovem presidente francês saído como um prestidigitador do nada será a vedete absoluta. Toda a Europa observa este Óvni com os olhos arregalados. Arregalados demais. Uma passagem em revista da imprensa europeia seria quase cômica.

Para o Financial Times, Macron é o rei Luis XIV (séculos 17 e 18); para Le Temps (suíço), ele é o general De Gaulle; La Stampa (Itália) e El País (Espanha) o intitulam “Macron 1.º, rei da França”. Para outros, Macron é Napoleão. O Financial Times analisa “o terremoto Macron”; The Economist, de Londres, que é uma publicação sisuda, sob o título “O salvador da Europa” mostra o francês andando sobre a água, o lado de uma Theresa May se afogando. 

A admiração do novo presidente francês, pela arte com que ele moveu todas suas peças, pela maneira como reduziu a pó Marine Le Pen num debate eleitoral, pela maneira como este jovem frágil aguentou firme o punho de Donald Trump, pela calma com que ele enfrentou Putin, enquanto reatava alguns fios rompidos estupidamente por François Hollande. Mas além de todos esses detalhes, Macron tem uma virtude suplementar para o pessoal de Bruxelas: ele tem fé na Europa.

Ocorre que hoje em dia a fé na Europa é uma mercadoria rara e, portanto, sem preço. Ela ainda é encontrada em alguns exemplares nos países simpáticos, mas sem grande importância, como a Itália e a Espanha. Em outros países, prevalece o euroceticismo dos países do Leste (Hungria, Polônia) ou então um fervor pró-europeu fatigado e sem brilho.

O único chefe de Estado que crê realmente na Europa é a chanceler Angela Merkel, da Alemanha. Mas aos olhos dos países vizinhos, o afeto que Merkel tem pela Europa só se explica pelos benefícios que valem para a Alemanha a posição proeminente de Berlin na UE e no continente em geral. Ao contrário, certo ou erradamente, a maioria dos dirigentes da UE pensa que o apego de Macron pela Europa é nítido, desinteressado e leal.

Motor franco-alemão. O que a União Europeia aguarda com expectativa é que Macron e Merkel consigam recolocar em movimento o famoso motor franco-alemão que funcionava às mil maravilhas no tempo de François Mitterrand / Helmut Kohl, para se apagar em seguida nos governos de Chirac, Sarkozy e Hollande.

Mas isso é bom: como todo o mundo, Merkel está fascinada pelo francês. Ela compartilha com ele o desejo de livrar a UE de suas poeiras, de lhe dar vida e cores, por exemplo, criando uma Europa da Defesa, um Ministério das Finanças do grupo do euro, e adotando uma política comum sobre os imigrantes, as fronteiras, etc.

Macron avança por esses caminhos escabrosos com energia, mas também com prudência. Ele compreende que a locomotiva franco-alemã corre o risco de irritar e até mesmo ferir as suscetibilidades dos outros membros da comunidade. Ele já se encontrou em Paris com alguns responsáveis dos outros países europeus. Em Bruxelas, programou várias reuniões privadas com os pequenos da Europa do oeste e do leste.

Ainda não se sabe se ele anda sobre a água, como pretende The Economist. Em compensação, uma coisa é certa: ele avança resolutamente, mas a passos silenciosos, procurando não ofender seus parceiros. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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