Helvio Romero/Estadao
Helvio Romero/Estadao

‘Espero ter novas contribuições do Brasil em missões’

Chefe do Departamento de Operações de Paz da ONU elogia trabalho das forças brasileiras no Haiti e admite que trabalho humanitário das Nações Unidas está sendo colocado à prova

Entrevista com

Jean-Pierre Lacroix, chefe do Departamento de Operações de Paz da ONU

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2017 | 05h00

Em entrevista exclusiva ao Estado, o chefe do Departamento de Operações de Paz da ONU, Jean-Pierre Lacroix, elogia o trabalho das Forças Armadas brasileiras no Haiti e admite que está em negociação para uma nova missão brasileira. No comando de 95 mil soldados em 15 países diferentes, o diplomata francês também reconhece que o trabalho humanitário da ONU está sendo colocado à prova e, hoje, o mundo é mais perigoso que há uma década. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O Brasil concluiu 13 anos no comando da missão da ONU no Haiti. Qual a avaliação que a entidade faz do trabalho brasileiro?

Não há nenhuma dúvida. Os brasileiros fizeram uma enorme diferença para o Haiti. Eu os vi trabalhando, encontrei os comandantes. A contribuição foi essencial. Hoje, o Haiti ainda tem desafios. Mas é um país mais estável. Os soldados brasileiros estavam programados para se retirar. Mas, por conta do furacão Irma, aceitaram ficar e ajudar. Estamos muito gratos pelos últimos anos. Foram absolutamente fundamentais.

Qual é agora o maior desafio para o Haiti?

O Haiti, obviamente, não é um lugar perfeito. Mas o foco mudou. O nosso trabalho deve ser mais para garantir a lei e a ordem. Portanto, nosso novo mandato é o de ajudar o Haiti a consolidar o estado de direito, fortalecer sua polícia, suas instituições, tribunais e seu sistema penitenciário. Ao fazer isso, queremos criar um cenário mais favorável ao desenvolvimento do Haiti. Se chegarmos a ter instituições mais estáveis, teremos maior investimento e uma situação melhor. 

É substituir, portanto, a presença militar por um novo modelo?

O Conselho de Segurança concluiu que o contingente militar foi extremamente útil. Mas estamos em uma nova fase e é importante que a presença da ONU evolua e a natureza de nosso trabalho também, à medida que mudem as necessidades do país.

Mas há cerca de 20 anos, a ONU também declarou o fim de uma missão no Haiti e teve de voltar. Qual garantia o sr. tem de que, desta vez, as coisas são diferentes?

A transformação da missão significa que a ONU continua com sua presença no Haiti pelos próximos anos. Terminou a operação militar. Mas não a presença internacional. O Haiti continua precisando de apoio da comunidade internacional. Essa presença será mais focada na construção das instituições.

E qual o futuro das tropas brasileiras na ONU?

Apreciamos as tropas brasileiras que, além do Haiti, estiveram em outras missões. Sou um grande apoiador do envolvimento do Brasil em operações de paz. Eles já demonstraram que têm boa capacidade, bons comandantes. Portanto, espero ter novas contribuições do Brasil para operações de paz. Obviamente, essa será do governo brasileiro a decisão de contribuir para operações.

Foi dito no Brasil que um dos casos sob estudo é o da República Centro-Africana. É uma opção para a ONU? 

A República Centro-Africana certamente seria uma opção. Saudamos o interesse do Brasil por essa missão. Certamente esse seria um país que olharíamos de forma muito favorável em ter o Brasil. 

Existem outras opções para o Brasil?

Em alguns outros países, precisamos de uma ajuda especializada e localizada. No Mali, por exemplo, precisamos de helicópteros e soldados altamente profissionais. 

A pressão sobre o orçamento da ONU já chegou a um ponto perigoso que ameaça o mandato das missões?

Não estamos neste ponto ainda. Se esse for o cenário em alguma das missões, teremos de dizer. Estamos focados agora em ser mais eficientes, independente da pressão que pode vir de um Estado-membro.

Mas há uma falta recursos para o número de conflitos e crises internacionais?

Se você olhar de uma maneira global, e não apenas para missões de paz, certamente há um problema na questão humanitária. As necessidades aumentam ainda mais. Na República Centro-Africana estamos sob pressão. Em outros casos, estamos trabalhando para ver como melhor usar nossos recursos, de sermos mais flexíveis.

O sr. tem como responsabilidade o comando de 15 operações de paz. Na sua avaliação, o mundo está mais perigoso hoje?

Sim, estamos sendo mais desafiados do ponto de vista de segurança. Não é apenas uma questão de um Estado. Mas ameaças globais como crime organizado e terrorismo.

Como fica a situação da ONU diante da pressão do maior doador da entidade (EUA) e suas ameaças de retirar fundos? Isso não o preocupa?

O que isso significa é que nunca houve tanta necessidade da existência da diplomacia, da ONU e do sistema multilateral como hoje. 

 

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