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‘Esse governo é ditatorial e não reconhece a oposição’

Denise Chrispim Marin, Enviada Especial / Caracas - O Estado de S. Paulo

04 Abril 2014 | 00h 37

Legislação venezuelana determina que, se opositor preso não for indiciado formalmente na sexta-feira, terá de ser libertado

CARACAS - À espera da libertação de Leopoldo López, líder do partido Vontade Popular (VP), com quem se casou há dez anos, a preparadora física e ex-apresentadora de TV Lilian Tintori tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da oposição venezuelana. Na sexta-feira, 4, vence o prazo de 45 dias para que López, detido no presídio militar de Ramo Verde, seja indiciado por terrorismo, associação para o crime e rebelião contra o Estado - ou libertado. A mulher do opositor vai liderar uma marcha até a sede do Ministério Público. A seguir, os principais trechos da entrevista de Lilian ao Estado.

Houve algum sinal de que López será libertado?

O panorama está muito negativo. Nos casos de Leopoldo e dos prefeitos do VP, inocentes foram presos e não podem ficar mais nem um dia em Ramo Verde. Se o governo der esse passo, abrirá um precedente para os demais presos políticos e para reconhecer a oposição como força política.

O governo culpa o VP e seus líderes por crimes durante os protestos convocados pela oposição. Como defendê-los?

O VP venceu em 19 municípios nas eleições do ano passado. É um partido que conhece profundamente o país hoje, que tem feito um trabalho nas bases. Leopoldo percorreu o país inteiro para ouvir as pessoas em cada canto. Por quatro anos, viajou de terça-feira a sábado nessa tarefa.

A proposta "A Saída" precipitou sua prisão?

Naquele momento, o projeto "A Saída" se acelerou. A Constituição prevê três formas de remover o presidente: sua renúncia, a convocação de uma Constituinte e um referendo na metade de seu mandato. Seria algo pacífico e organizado. Também há o caminho da reforma política para a redução do mandato presidencial. Nós não acreditamos no "fora já" nem podemos dizer isso ao governo. É o povo quem tem de dizer. Leopoldo jamais disse "fora já". Mas ele sempre assumiu suas responsabilidades, sempre deu a cara a tapa e, por isso, se entregou.

O governo qualifica o VP e a oposição, em geral, como de direita fascista. Como López recebe essa crítica?

Leopoldo não acumula ódio nem rancor. Ele entende que esse governo é ditatorial e não reconhece o trabalho e a liderança da oposição. Estamos do lado correto da história.

Sua família sofreu alguma ameaça ou intimidação desde que a ordem de prisão?

No período da clandestinidade, a Guarda Nacional invadiu minha casa para procurar Leopoldo horas depois de fazer o mesmo na sede do VP. Os soldados chegaram no escritório do partido com capuzes e armados com fuzis e pistolas. Fizeram as funcionárias se ajoelhar no chão e apontaram as armas para as suas cabeças. Não tinham ordem de busca e apreensão. De noite, fizeram o mesmo aqui em casa. Entraram e vasculharam tudo, até o quarto onde meus filhos dormiam. Na mesma noite, invadiram também a casa dos pais de Leopoldo.

E quanto às autoridades do governo?

Naquela mesma noite, Diosdado Cabello (presidente da Assembleia Nacional) veio à minha casa falar comigo e com os pais de Leopoldo. Propôs a solução do governo: a saída de Leopoldo do país, seu asilo político em uma embaixada ou sua entrega secreta. Dissemos que nenhuma alternativa seria possível porque ele não devia a ninguém. Leopoldo, então, convocou por Twitter as pessoas para o acompanharem na Praça Brión. Ele se entregou a uma Justiça injusta de forma voluntária e digna. Eu acho que foi um ato de valentia.

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