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Estado Islâmico pratica limpeza étnica e sectária no Iraque e na Síria

De acordo com especialistas, intenção do grupo radical é impor o que seus militantes qualificam de ‘ideologia salafista’, que utiliza violência e terrorismo como ferramentas de controle social

Guilherme Russo, O Estado de S.Paulo

17 Março 2015 | 15h57

 As estratégias de terror usadas pelo Estado Islâmico (EI) no território que o grupo sunita domina na Síria e no Iraque, expressas pelas recentes – e bem divulgadas – decapitações de reféns e destruições de relíquias ancestrais, além do massacre da minoria yazidi, são sinais de que os radicais pretendem pôr em prática uma limpeza sectária e étnica em seu “califado”. A intenção é impor o que eles qualificam de “ideologia salafista”.

“Os fundamentalistas chamam isso de ‘agir como animais selvagens’. Até teorizaram sobre o que é agir como animais selvagens – é uma maneira de impingir o terror nos corações das pessoas”, afirmou ao Estado o historiador Juan Cole, especialista em Oriente Médio que leciona na Universidade de Michigan.

Segundo o analista, essa técnica de terrorismo “é um mecanismo de controle social”, pois evita a resistência à conquista. “Se tiverem medo de você agir como um animal selvagem, não se rebelarão tanto”, disse. “O mais importante é que eles pretendem fazer uma limpeza étnica e sectária, matar ou converter todos que não pensam como eles. Isso inclui sunitas moderados, xiitas e os numerosos grupos religiosos no norte do Iraque.”

Cole explicou que “a pretensão deles é arregimentação social e política simbólica por meio de uma visão muito limitada sobre o que deve ser permitido na sociedade”. “Isso é inspirado em formas ancestrais de radicalismo muçulmano. Eles são iconoclastas. No Velho Testamento, os dez mandamentos incluem uma proibição à idolatria. Os radicais do EI têm basicamente a mesma política que Moisés, acreditam que nenhum ídolo deve ser permitido.”

Analistas afirmam que, além de destruir as relíquias da Antiguidade, os radicais estão vendendo as peças para financiar suas atividades. “O barbarismo desses mercenários parece não ter limites. É lamentável que, em pleno século 21, estejamos assistindo à destruição da herança civilizatória e cultural do povo iraquiano. A religião muçulmana é orientada sob os princípios da paz, da temperança e da tolerância. Os terroristas do EI deturpam de forma grotesca os princípios do Islã”, afirmou o cientista político Hussein Kalout, especialista em Oriente Médio e pesquisador da Universidade Harvard.

De acordo com o analista, “cometendo atos de extrema barbárie, os radicais negligenciam a mensagem real do islamismo para acomodar seus interesses criminosos”.

Outra fonte de financiamento dos militantes do EI, segundo Cole, é o contrabando de petróleo e de gasolina. “Eles têm algumas refinarias sob controle. Levam combustível para a Turquia. As pessoas não fazem perguntas”, disse o historiador, explicando que os radicais praticam preços muito inferiores aos do mercado.

Kalout afirmou que grupos locais sunitas leais ao regime de Saddam Hussein e clãs tribais sunitas insatisfeitos com a partilha do poder no Iraque também financiam as atividades dos radicais, assim como o apoio externo de países e indivíduos interessados na desestabilização do país. “As acusações recaem sobre algumas monarquias (de predominância sunita) do Golfo – particularmente, Arábia Saudita e Catar. Fontes do governo do ex-premiê iraquiano Nuri al-Maliki (xiita) apontavam o dedo para o serviço de inteligência saudita como o provedor de armas ao EI. A Turquia também faz parte da lista”, disse o pesquisador de Harvard.

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