AP Photo/Evan Vucci
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Trump congela reaproximação dos EUA com Cuba e defende embargo

Medidas anunciadas pelo presidente americano não revertem totalmente retomada dos laços entre os países, mas restringem viagens individuais e negócios com regime; republicano condiciona qualquer novo avanço a uma abertura política na ilha

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2017 | 15h02
Atualizado 16 Junho 2017 | 20h59

WASHINGTON - O fim do embargo econômico dos EUA a Cuba ficou mais distante nesta sexta-feira, 16, quando Donald Trump condicionou o levantamento das sanções à abertura política na ilha. Em discurso voltado à linha dura da comunidade cubano-americana, o presidente dos EUA anunciou restrições a viagens e gastos em Cuba e retomou a retórica hostil que dominou a relação bilateral por quase seis décadas. 

“Com a ajuda de Deus, uma Cuba livre é o que nós conquistaremos logo”, afirmou em Miami, no Teatro Manuel Artime, batizado em homenagem a um dos veteranos da invasão da Baía dos Porcos, uma operação fracassada patrocinada pela CIA em 1961 com o objetivo de derrubar o governo de Fidel Castro. Entre os que aplaudiram suas palavras estavam alguns dos sobreviventes da incursão.

Trump apresentou as medidas desta sexta como um “cancelamento” da política de reaproximação iniciada por Barack Obama e Raúl Castro em 17 de dezembro de 2014. Naquele dia, ambos anunciaram que restabeleceriam relações diplomáticas depois de um rompimento de 55 anos. No entanto, a maior parte das mudanças promovidas pelo antecessor de Trump continuará em vigor. 

Os principais anúncios desta sexta foram o fim de viagens individuais para intercâmbio pessoal e a proibição de gastos em estabelecimentos de propriedade do Exército, que controla cerca de 60% da infraestrutura de turismo na ilha. As embaixadas permanecerão abertas, os voos diários e cruzeiros serão mantidos e os cubano-americanos continuarão a ter liberdade de visitar e de enviar dinheiro a seus parentes em Cuba. 

Ainda assim, a hostilidade em relação ao governo da ilha é um indício de que o ritmo de normalização dos laços bilaterais será reduzido drasticamente. “Não vamos levantar sanções contra o regime de Cuba até que todos os prisioneiros políticos sejam libertados, as liberdades de reunião e expressão sejam respeitadas, todos os partidos políticos sejam legalizados e livres, e eleições livres, e com supervisão internacional, sejam marcadas”, disse Trump. Quando anunciou o reatamento de relações diplomáticas, Obama pediu ao Congresso que suspendesse o embargo.

Impacto.

Nenhuma das medidas mencionadas pelo presidente dos EUA estava no radar do governo de Havana, disse Ernesto Hernández-Catá, ex-economista do Fundo Monetário Internacional e presidente da Associação para Estudo da Economia Cubana. “Haverá mais palavras duras e o efeito concreto sobre políticas públicas será nulo. O governo cubano não se deixa intimidar facilmente.”

Em sua avaliação, os anúncios de Trump são cosméticos e de difícil implementação. “Quem vai fiscalizar se os americanos que viajam à ilha gastam dinheiro em hotéis e restaurantes do Exército?”, questionou.

A defesa de direitos humanos contrastou com a posição tolerante de Trump em relação violações dos mesmos por regimes autoritários de vários outros países, como Filipinas, Arábia Saudita, Rússia e Turquia.

 

“O anúncio não teve nada a ver com uma visão estratégica. Foi pura política doméstica”, avaliou Peter Hakim, presidente emérito do Diálogo Interamericano. Para ele, o discurso “teatral” deu a Trump a oportunidade de falar em liberdade e democracia, criticar seu antecessor e cultivar a lealdade do senador Marco Rubio. Filho de imigrantes cubanos e crítico da reaproximação com a ilha, ele é um dos principais defensores no Congresso da investigação sobre a interferência da Rússia nas eleições de 2016.

Mas o efeito não é apenas retórico, afirmou Hakim. Em sua opinião, as restrições a viagens terão impacto negativo sobre a ilha e agravarão as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos comuns. No discurso, o presidente também exigiu a extradição de condenados por crimes nos EUA que se refugiaram em Cuba. O caso mais emblemático é o de Assata Shakur, militante dos Panteras Negras acusada de matar um policial nos anos 70.

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