AFP/ JUSTIN TALLIS
AFP/ JUSTIN TALLIS

Estranhos parceiros do extremismo

São estreitas as ligações e as principais características de integrantes da extrema direita e do jihadismo radical

Diego Gambetta e Steffen Hertog / Project Syndicate

06 Abril 2016 | 05h00

Hoje, associamos políticas de extrema direita a uma islamofobia explosiva. Não foi sempre o caso. Na verdade, o relacionamento entre a extrema direita, particularmente na Europa, e o radicalismo islâmico é profundo, com adeptos de ambos os lados compartilhando importantes características.

Essas ligações foram frequentemente mencionadas. Amin al-Hussein, grão-mufti de Jerusalém de 1921 a 1937, mantinha relacionamento com os regimes fascistas da Itália e da Alemanha. Muitos nazistas encontraram refúgio no Oriente Médio depois da 2.ª Guerra; alguns até se converteram ao islamismo.

Julius Evola, o pensador reacionário italiano cujo trabalho inspirou a extrema direita europeia do pós-guerra, admirava abertamente o conceito da jihad e o autossacrifício que ela exige.

Depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, neonazistas americanos e europeus aplaudiram os extremistas. Um membro da Aliança Nacional, primeiro grupo neonazista americano, desejou que seus correligionários tivessem “pelo menos metade da fortaleza” dos terroristas.

Na França, os ataques foram comemorados nos QGs da Frente Nacional. Neonazistas alemães queimaram bandeiras americanas. O grupo islamista Hizb ut-Tahrir foi banido da Alemanha em 2003 em parte em razão de seus contatos com a extrema direita.

Inimigos comuns – judeus, governo dos EUA, a chamada “Nova Ordem Mundial” – têm servido de sustentação política para essa aliança. Mas um exame mais detalhado dos componentes ideológicos e psicológicos dessa afinidade revela conexões mais profundas.

Diferentemente dos liberais e esquerdistas, os ideólogos islamistas e de direita têm uma visão autoritária, hierárquica e com frequência ritualizada da ordem social e da vida diária. Prometem purgar a sociedade da corrupção que a afastou de seu passado glorioso. Acreditam que sua “supremacia” racial ou religiosa justifica subjugar e mesmo escravizar outros.

Segundo psicólogos dedicados à política, a visão conservadora e de direita tende a vir acompanhada de uma tendência a indignar-se com facilidade, de uma necessidade de isolamento e da clara definição de quem pertence ou não ao grupo. Comecemos com os islamistas.

Muitos agentes da jihad são conhecidos pela obsessão por limpeza. Faisal Shahzad, que pôs bombas em Times Square, Nova York, cuidava meticulosamente de seu apartamento em Bridgeport, Connecticut, de onde partiu para seu atentado fracassado.

Mohamed Atta, líder dos atentados do 11 de Setembro, deixou instruções para que em seu enterro nenhuma mulher se aproximasse e os homens que lavassem seu corpo tocassem os genitais usando luvas.

Jihadistas salafistas estruturam suas vidas segundo uma concepção literal das escrituras islâmicas – um jeito de satisfazer suas “necessidades de isolamento”. Quanto à obsessão de definir quem pertence ao grupo, há uma doutrina central do salafismo que ordena aos fiéis distanciarem-se dos não fiéis, incluindo-se aí muçulmanos impuros.

A necessidade de certeza estende-se além da religião. Como levantamos em nosso livro Engineers of Jihad (Engenheiros da jihad), desde os anos 70 uma fatia desproporcional de radicais islâmicos vem preferindo a tecnologia hard a temas soft que proporcionam menos respostas claras.

Tanto Shahzad quanto Umar Farouk Abdulmutallab, o nigeriano dos explosivos na cueca que tentou explodir um avião em 2009, estudaram engenharia. Dos 25 diretamente envolvidos nos ataques do 11 de Setembro, 8 eram engenheiros, incluindo os dois líderes.

Para tentar determinar se há uma conexão sistemática, estudamos o histórico de educação de mais de 4 mil extremistas de todos os matizes em torno do mundo. Descobrimos que, entre radicais islâmicos nascidos e educados em países muçulmanos, engenheiros aparecem 17 vezes mais que entre a população geral desses países.

No mundo islâmico, mais engenheiros tendem a aderir a grupos radicais em países nos quais crises econômicas corroem as oportunidades de emprego para a elite graduada. Engenheiros também representam uma faixa desproporcional de radicais islâmicos que cresceram no Ocidente, onde as oportunidades de emprego são maiores. Eles também são mais improváveis de deixar para trás o islamismo violento que outros graduados.

E, criticamente, radicais islâmicos não são o único grupo com uma incidência desproporcional de engenheiros. Entre direitistas radicais com curso superior os engenheiros também são predominam. Entretanto, quase não há engenheiros entre grupos radicais de esquerda, que costumam atrair mais graduados em humanidades e ciências sociais.

Analisando dados de pesquisa com 11 mil graduados de 17 países europeus, constatamos que, além de estarem politicamente à direita, os engenheiros se caracterizam mais fortemente que outros graduados pelas tendências a irritabilidade, necessidade de fechamento e forte pertencimento a grupos. Essas características são muito mais tênues entre graduados em humanidades e ciências sociais.

São características igualmente fracas entre mulheres, que têm forte presença na esquerda radical e são quase ausentes entre radicais islâmicos e extremistas de direita. A correlação entre características psicológicas, preferências acadêmicas e presença em diferentes grupos radicais é quase perfeita.

Obviamente, a maioria dos que estudam engenharia ou têm forte tendência à ordem não se tornará um radical, o que significa que esses fatores não podem ser usados para se traçar perfis. Mas tais dados da psicologia da radicalização continuam importantes. Governos ocidentais e de muitos países árabes empregam centenas de pessoas para dissuadir potenciais radicais sem contudo entender claramente as necessidades psicológicas de que essas ideologias se servem.

Mas tais dados da psicologia da radicalização continuam importantes. Muitas pesquisas ainda são necessárias, mas adquirir tal conhecimento pode revelar meios de atender a essas necessidades, antes ou depois que a radicalização ocorra. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

GAMBETTA É PROFESSOR DE TEORIA SOCIAL NO EUROPEAN UNIVERSITY 

INSTITUTE. HERTOG É PROFESSOR DE POLÍTICA COMPARADA NA LONDON SCHOOL OF ECONOMICS

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